O GLOBO, n 32.356, 09/03/2022. Economia, p. 12
“A ENERGIA E UMA DAS ARMAS DESTA GUERRA”
Edmar Almeida , PROFESSOR DO INSTITUTO DE ENERGIA DA PUC-Rio
Edmar Almeida, professor do Instituto de Energia da PUC-Rio, diz que a invasão da Ucrânia pela Rússia já se tornou uma guerra econômica. E o Brasil, além dos preços em alta, pode sofrer com desabastecimento a depender das decisões do governo.
Como o início das sanções na área de energia anunciadas por EUA e Reino Unido pode afetar o Brasil?
Nenhum país vai sair ileso porque a questão da energia está se tornando uma das armas desta guerra na Ucrânia. Os Estados Unidos proibiram a importação de petróleo, gás e carvão da Rússia. O Reino Unido vai parar de comprar petróleo até o fim de 2022. A Rússia, por sua vez, está ameaçando cortar o gás que fornece para a Europa. Ou seja, o conflito está se tornando uma guerra econômica. E isso vai afetar a economia mundial. O vetor inicial são os preços de combustíveis e energia. E, a depender do que fizermos, a segurança de abastecimento pode estar ameaçada também.
Mas por que poderíamos ter um desabastecimento?
Se o governo brasileiro intervier no mercado de forma equivocada, pode inviabilizar a participação de vários supridores (importadores) no Brasil.
Hoje, a Petrobras não controla mais toda a logística para o suprimento nacional, como gasolina e diesel. Então, a solução clássica de usar a Petrobras para tudo não resolve mais. E ao usar a estatal você pode criar outro problema. E não adianta, do ponto de vista político, mesmo com a proximidade das eleições, ter ilusão de que qualquer mecanismo vai blindar o Brasil, pois estamos em um período de guerra. O que podemos tentar é mitigar o problema.
Mas como fazer isso?
A maneira mais evidente é a questão dos impostos. É intolerável que o governo queira aumentar a arrecadação com os combustíveis em um momento como esse.
Alguns analistas já falam em petróleo a US$ 200. Tem limite?
O preço não tem limite nem teto. Quando tem proibição no comércio ou problemas com navios, o funcionamento do mercado é ameaçado. Tem que ocorrer uma cooperação global. Então, primeiro é gerada uma inflação e isso pode levar a economia para a recessão. O Brasil, por exemplo, importa fertilizantes, e as exportações russas já foram suspensas. Como vai ficar a safra do ano que vem? O Brasil é importador de gás e derivados. Se a Europa deixar de comprar gás e petróleo da Rússia, começa a disputar com o Brasil. Do ponto de vista econômico já é uma guerra mundial. Apesar de não estarem se envolvendo militarmente, os países usam a economia como arma.
Mas a produção de petróleo no Brasil não consegue atender?
A produção do Brasil não será afetada, mas infelizmente somos dependentes de importação de combustíveis, principalmente diesel. A Petrobras não investiu em mais refinarias nem empresas privadas por causa da eterna política de preços da estatal.