Valor Econômico, v. 22. n. 5425, 26/01/2022, Empresas, B2 

Menos água obriga hidrelétricas a investirem em sistemas mais eficientes

Robson Rodrigues

 

Grandes geradoras de energia hidrelétrica estão investindo bilhões de reais na troca de turbinas para enfrentar uma tendência de redução na oferta de água, causada por questões ambientais ou pela disputa pelo uso do bem natural com outros segmentos da economia, como irrigação e indústria. O objetivo é tentar manter a mesma geração de energia com uso de menos água.

Pesquisa feita pelo Grupo de Estudos Energéticos da Universidade Federal do Paraná (UFPR) comprovou que, entre 2010 e 2020, o volume de água que chegou aos reservatórios das principais Usinas Hidrelétricas (UHEs) do Brasil caiu 10,3% em comparação com a média completa de 1931 a 2020. O coordenador do estudo, Daniel Detzel, diz que o motivo das mudanças nas vazões das grandes hidrelétricas se deve a uma interação entre mudanças climáticas, variabilidade natural e ação do homem.

Os equipamentos instalados, por funcionarem há 45 anos ou mais, já não operam com 100% de carga

Os dados são da série histórica do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e o recorte histórico da última década evidencia redução no volume de água que chega em boa parte dos 161 reservatórios das hidrelétricas do Brasil com mais de 30 megawatts (MW) de capacidade instalada.

Como algumas dessas usinas datam da década de 1950, ainda enfrentam o processo de assoreamento dos reservatórios que reduz a capacidade de acumulação de água. Após 37 anos de operação, Itaipu Binacional iniciou a modernização tecnológica e prevê mais 12 anos para a atualização das unidades geradoras, com investimentos que superam US$ 650 milhões.

As usinas do Nordeste foram as mais afetadas com a redução do volume de água que chega aos reservatórios. Nos cálculos de Detzel, o subsistema da região sofreu redução de 43,4% do volume, enquanto no Sul, as tendências de aumento de vazão se mantêm positivas, porém perderam força.

A Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) anunciou investimentos de R$ 1,5 bilhão para a modernização das instalações de geração a ser executado no período de 2021-2030, que incluem as usinas hidrelétricas de Sobradinho, Paulo Afonso IV, Luiz Gonzaga e Xingó para substituição de equipamentos analógicos para recursos digitais. No primeiro ano, os investimentos chegaram a R$ 100 milhões.

“Em 2021, todas as nossas usinas superaram as metas de disponibilidade e tiveram resultados aprovados nas simulações de restabelecimento do sistema”, disse o diretor de Operação, João Henrique Franklin.

A Voith fez a modernização da UHE Tucuruí e é a responsável pelo contrato para a modernização de Paulo Afonso IV. Com a repotenciação, a usina contará com um aumento de 2,5 GW de potência instalada. O projeto poderá aumentar a capacidade da usina oferecendo energia capaz de abastecer uma cidade de 170 mil pessoas.

O diretor de Vendas de Modernização da Voith Hydro América Latina, Ricardo Lee, conta que a maior crise do setor se deve pela redução dos índices pluviométricos e isso se acentua no Nordeste.

“Com a aplicação de tecnologias híbridas, conseguimos fazer com que as usinas hidrelétricas possam operar em diferentes faixas de níveis de reservatório, o que pode ser uma das saídas para enfrentar essa crise hídrica”, diz o executivo.

Hoje o Brasil é dependente das hidrelétricas para geração de energia. Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) apontam que essas usinas respondem por 56,59% da capacidade instalada do Brasil.

Lee avalia que a modernização e a repotenciação têm condições de fazer com que as usinas voltem a gerar com a mesma eficiência e aumentar a confiabilidade do ativo. “Quando a gente modernizar as usinas de grande porte no Brasil, com a mesma quantidade de água conseguiremos tornar essas usinas mais eficientes”, afirma.

Recentemente a Voith assinou um novo contrato para reforma da Hidrelétrica Paulo Afonso II, que está em operação desde a década de 1960. “Os equipamentos instalados, por funcionarem há 45 anos ou mais, já não operam com 100% de carga”, diz Lee.

Detzel conta que o período mais crítico da série histórica foi de 1949 até 1956 e a energia gerada nesta época é o que hoje define a garantia física das usinas, que é quanto elas podem vender.

“É importante entender as razões de esse período crítico estar mudando porque na década de 2010 geraram menos energia do que elas venderam. Então elas estarão no perigo de déficit frequentes. Isso é ruim para o sistema, que vai receber menos energia, e para os empreendedores, que vão estar em dívida tendo que recorrer a outro tipo de mecanismo de mercado para comprar energia a um preço mais elevado”, analisa.

Detzel acrescenta que o aumento do uso da água para outros fins, como irrigação, piscicultura, navegabilidade para transporte, entre outros, contribui para que os reservatórios se esvaziem mais rapidamente. Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), em 2020 o maior consumidor de água foi o segmento de irrigação (34%), seguido de abastecimento urbano (17%) e indústria (7%).

Detzel avalia que a construção de novos reservatórios seria uma alternativa para garantir energia armazenável. Todavia, o Plano Decenal de Energia (PDE) não contempla novas usinas de acumulação e prevê que as hidrelétricas passarão a ser responsáveis por menos da metade da oferta de eletricidade brasileira até 2031.

“A médio e longo prazo, acredito que a diversificação das fontes de energia seja uma alternativa”.