Valor Econômico, v. 22. n. 5426, 27/01/2022, Brasil, A4

Clima põe em xeque efeito do agro no PIB

Anaïs Fernandes
 

Com excesso de chuvas em algumas regiões e seca em outras, a contribuição da agropecuária para o PIB do Brasil, vista pelos economistas como um dos pilares da atividade neste ano, começa a levantar dúvidas. A visão geral é que o setor ainda terá desempenho positivo, após a queda projetada para o número oficial de 2021, porém, menor do que o esperado anteriormente, o que contribui para revisões baixistas do produto.

A mudança na estimativa do BNP Paribas para o PIB do Brasil em 2022, de +0,5% para -0,5%, contempla um PIB agro indo da casa de 5% para cerca de 1,5%, explica Gustavo Arruda, chefe de pesquisa para América Latina do banco. “Ficamos bastante surpresos, virou muito rápido.” Ele estima que a agropecuária tirou, diretamente, 0,2 ponto percentual da sua projeção de PIB total. Somando efeitos indiretos - sobre a indústria, por exemplo; tratores têm peso importante na produção de automóveis, observa Arruda - o impacto negativo seria mais perto de 0,3 ponto.

O Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre) mantém PIB positivo para 2022, mas ajustou a previsão de 0,7% para 0,6%, entre outras coisas, devido à revisão na agropecuária de 5% para 3,5%. O Barclays mudou seu PIB em 2021 de 4,5% para 4,3% e manteve a previsão de 0,3% em 2022, mas diz monitorar riscos negativos. Entre eles, o economista-chefe para o país, Roberto Secemski, cita “condições extremas de calor e seca no Sul do Brasil ameaçando a produção de soja e milho, que normalmente lideram os ganhos agrícolas no primeiro trimestre de cada ano”.

Em períodos do fenômeno natural La Niña, como agora, os reflexos costumam ser, exatamente, seca no Sul do Brasil e chuvas no Nordeste, explica César Castro, especialista em agro do Itaú BBA. “Em 2021, estávamos sob La Niña, mas os efeitos foram mais amenos.”

No calendário do Brasil, segundo Castro, o grosso da safra de grãos vem primeiro da soja do Cerrado e, depois, da safrinha do milho, cujo plantio ocorre por agora e a colheita é feita pouco antes do meio do ano. Na região Sul, onde a seca está muito forte, porém, essa fotografia de “mais soja, menos milho” é um pouco diferente, diz ele. Lá, só a primeira safra de milho já pode ser da ordem de 25 milhões a 30 milhões de toneladas, com a safrinha chegando a 80 milhões. “Esses 30 milhões estão sofrendo muito”, afirma o analista.

O resultado, diz, é a redução nas expectativas para a primeira safra de milho do país, com perdas entre 4 milhões e 5 milhões de toneladas, e também para parcela da soja, com quebra de uns 10 milhões. “Na soja, acontece tudo agora”, afirma Castro, observando que Paraná e Mato Grosso do Sul, os locais mais relevantes para o plantio, também sentem a estiagem.

Ainda que no Brasil como um todo a primeira safra do milho seja menos representativa, ela tem o papel importante de “criar uma gordura”, até o meio do ano, para a demanda da pecuária, diz Castro. “Grande parte da questão do milho no Brasil se resolve no segundo semestre. No ano passado, houve uma baita quebra da safrinha, o que significa que o colchão de estoques está super curto. Então, vamos ter um problema regional.”

Com essa piora nas estimativas, o Itaú Unibanco, que calculava um crescimento do PIB agro em 2022 perto de 5%, agora prevê algo entre 1% e 2,5%. “Ainda tem uma incerteza sobre como será a revisão do IBGE”, diz o economista Luka Barbosa. De qualquer forma, o movimento na agropecuária deixa o Itaú mais confortável com sua estimativa para a economia em geral. “Antes, víamos esse PIB agro forte em 2022 como um risco de alta para a nossa projeção de -0,5% de PIB do Brasil. Agora, estamos bem menos preocupados”, afirma.
Milho e soja pressionados levaram o Itaú a revisar sua projeção preliminar para o PIB deste primeiro trimestre de 0,7% para 0,4% - incorporando dados adicionais de outros setores, o número escorregou mais um pouco, para 0,3%. “É um primeiro trimestre ainda positivo, por causa do agro, mas menos do que antes”, diz Barbosa.

Em seu último relatório, de 11 de janeiro, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) cortou quase 7 milhões de toneladas de sua projeção para a colheita de grãos no Brasil, que passou a ser de 284,39 milhões de toneladas na atual safra. Os dados dizem respeito à semana até 18 de dezembro, e novas revisões para baixo devem ocorrer, diz Cristiano Oliveira, economista-chefe do Banco Fibra.

Sua projeção para a agropecuária no PIB, que já foi de 4%, agora está em 2,5%. Esse valor é suficiente para deixar o PIB total perto de zero, mas, levando em consideração as informações mais recentes das culturas, Oliveira diz que a impressão é de um viés levemente negativo para a economia em 2022.

Oliveira reforça, no entanto, que, apesar da importância do agro para a economia brasileira, ele representa algo próximo de 5% do PIB. “Existe a cadeia, aí, a participação do agronegócio é maior. Mas, para efeitos de cômputo do IBGE na apuração do PIB, isso entraria em indústria, serviços”, explica. Por isso, ele diz que não dá para “culpar” a agropecuária caso o PIB fique negativo neste ano.

O Rabobank, que já trabalhava com uma projeção mais conservadora para o PIB agro em 2022, de 3,5%, tem a avaliação de que ainda é cedo para rever o número. “Estamos confortáveis. Com isso, ficamos com um PIB total neste ano ao redor de 0,6%”, aponta o economista-chefe Mauricio Une.

Na safra de soja, por exemplo, a projeção é de certa estabilidade: 140 milhões de toneladas, ante 137 milhões no ano passado, segundo Une. “Temos ainda um bom ano, mesmo com a seca. Há certa sustentação, mas que temos de monitorar”, afirma. Castro, do Itaú BBA, projeta cerca de 135 milhões de toneladas para a soja. “A expectativa era de produção um pouco maior do que em 2021, mas ainda assim é um número razoável”, diz.

Outras culturas, como cana-de-açúcar e café, e bovinos devem performar bem, segundo Oliveira. Une lembra que o café está na bianualidade positiva - a safra mais forte ocorre a cada dois anos. “No ano passado, vimos geadas afetando mudas de café. Para este ano, a expectativa é de recuperação: 63,5 milhões de sacas em 2022, ante 57 milhões em 2021”, estima. 

Mesmo as dificuldades no milho tendem a se dissipar ao longo do ano, segundo Castro. Se ele é plantado na janela certa da soja, até o fim de fevereiro, há grande chance de não sofrer com secas ou geadas, explica. “Como a soja está sendo colhida e a perspectiva de clima é relativamente boa daqui para frente, achamos que há condições de uma safrinha voltando à normalidade”, diz. Ele projeta 116 milhões de toneladas de milho para o ano (87 milhões em 2021).

Oliveira diz que a safrinha de milho pode ser beneficiada ainda por preços de mercado mais fortes. Na B3, diz Une, do Rabobank, eles têm se mantido em patamar relativamente alto, assim como os preços internacionais. “Por mais que tenha essa queda na expectativa de volume para o milho, tem um preço segurando.”

Para Arruda, acompanhar o comportamento da safrinha não só nos riscos climáticos, mas também nos custos de insumos será fundamental para entender a dinâmica do agro no ano. “As margens agrícolas ainda serão historicamente consistentes, mas bem abaixo de 2021, porque os custos subiram demais, principalmente de fertilizantes e químicos”, diz Castro. Lucros menores na agropecuária diminuem um pouco da “irrigação” que o setor consegue transmitir para o PIB sob a forma de investimentos e contratações, explicam os analistas do Itaú.