O GLOBO, n 32.357, 10/03/2022. Economia, p. 12

Ipiranga decide fazer venda controlada de diesel

Manoel Ventura


Com o aumento do preço do petróleo este ano, empresa dá prioridade para sua rede própria de revendedores. Distribuidoras já começam a traçar plano para um eventual cenário de escassez do produto

Com o represamento dos preços dos combustíveis e a disparada do valor do petróleo no mercado internacional, a Ipiranga enviou um comunicado a seus revendedores avisando que a empresa irá analisar cada pedido antes de entregar o óleo diesel. O objetivo, diz a companhia, é “garantir o suprimento competitivo”.

A Ipiranga atribui o gargalo ao fornecimento internacional. “Os pedidos do dia para o mesmo dia e a antecipação de pedidos serão submetidos a análise antes da liberação ”, diz o comunicado enviado aos clientes da empresa ontem.

Normalmente, as distribuidoras não fazem essa análise antes de liberar as entregas dos combustíveis. Comum a análise sendo feita previamente, a empresa avalia seus estoques e a distribuição do produto, garantindo uma distribuição mais uniforme do óleo diesel.

No comunicado, a empresa —uma das maiores distribuidoras do país —afirma que está priorizando o atendimento dos pedidos na sua rede própria de revendedores.

A situação da Ipiranga é o primeiro reflexo do represamento do preço dos combustíveis. Como o GLOBO mostrou na edição de ontem, executivos do setor de petróleo e técnicos do Ministério de Minas e Energia (MME) temem desabastecimento de gasolina, diesel e gás de cozinha.

O principal temor observado no mercado é em relação ao óleo diesel, combustível mais importado.

Distribuidoras, inclusive, já começaram a traçar um plano para um cenário de falta de diesel. Nesse caso, as empresas iriam privilegiar o abastecimento a forças de segurança, transporte público e serviços de saúde.

Hoje, a Petrobras pratica o que é chamado de paridade de preço internacional, que leva em consideração os valores do barril de petróleo e do dólar para definir os valores dos combustíveis no mercado interno. Essa política é alvo agora do governo do presidente Jair Bolsonaro e do Congresso Nacional.

A estatal, porém, não reajusta os preços há mais de 55 dias. No último reajuste, o barril de petróleo era cotado a US$ 80. Ontem, fechou a US$ 111,14. Os valores subiram por causa das sanções do Ocidente à Rússia depois da invasão da Ucrânia.

Atualmente, a Petrobras é responsável por cerca de 80% do mercado nacional de combustíveis. O restante é importado, seja pelas grandes distribuidoras de combustíveis (responsáveis por metade do mercado) ou por importadores que abastecem os pequenos postos. Ou seja, a Petrobras, sozinha, não garante o abastecimento do país.

Com valores diferentes (entre o mercado interno e o mercado internacional), os importadores então teriam prejuízos, cenário em que simplesmente parariam de comprar o produto no mercado internacional. O resultado é que a demanda interna pode não ser atendida em sua totalidade, levando a um risco de desabastecimento, de acordo com diversas fontes do setor.

Por meio da assessoria de imprensa, a Ipiranga disse que está “ciente do cenário de suprimentos amplamente divulgado pela mídia”. “A Ipiranga segue trabalhando de forma diligente para manter a regularidade do abastecimento da rede de postos Ipiranga e clientes empresariais”, diz a nota.