O GLOBO, n 32.357, 10/03/2022. Mundo, p. 19

Bolsonaro tem sete conselheiros sobre invasão russa

Daniel Gullino


Presidente recorre a ministros antes de fazer comentários sobre o assunto; comércio de fertilizantes merece atenção especial

No início da guerra entre Rússia e Ucrânia, em 24 de fevereiro, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que ouviria dois ministros antes de apresentar suas posições sobre o tema: Carlos França (Relações Exteriores) e Walter Braga Netto (Defesa). Nas últimas semanas, no entanto, outros auxiliares têm apresentado ao presidente palpites na questão, entre ministros, assessores e um de seus filhos.

— Quando é que eu falo qualquer coisa sobre esse problema Rússia, Ucrânia? Eu falo depois de ouvir o ministro Carlos França, das Relações Exteriores, e o da Defesa, Braga Netto. Se for o caso, convido mais algum ministro —disse Bolsonaro, durante uma transmissão ao vivo realizada no dia seguinte ao início da guerra. Foi a mesma ocasião em que ele desautorizou o vice-presidente Hamilton Mourão por ter feito críticas à invasão russa, comparando a ação do presidente russo, Vladimir Putin, à movimentação militar do líder da Alemanha nazista, Adolf Hitler, às vésperas da Segunda Guerra Mundial.

Entre os ministros de Bolsonaro que também têm apresentado opiniões ao presidente, além de França e Braga Netto, estão Tereza Cristina (Agricultura), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Luiz Eduardo Ramos (Secretária Geral).

A ministra Tereza Cristina tem um papel crucial na questão porque um dos motivos para Bolsonaro evita criticar a Rússia é a dependência brasileira dos fertilizantes importantes daquele país e da Bielorrússia.

A ministra deve ir ao Canadá nos próximos dias para tentar negociar uma possível compensação aos fertilizantes russos.

LONGA CONVIVÊNCIA

Augusto Heleno e Luiz Eduardo Ramos, por sua vez, são os dois generais da reserva que seguem despachando no Palácio do Planalto.

Além da experiência militar, os dois conhecem Bolsonaro há décadas. E ambos fizeram parte da comitiva que foi à Rússia, em fevereiro, dias antes do início do conflito.

Outros dois assessores que despacham do Planalto também já manifestaram suas posições ao presidente: o secretário de Assuntos Estratégicos, Flávio Rocha, e o assessor especial da Presidência Filipe Martins.

Os dois têm histórico de atuação na política externa, mas geralmente com posições divergentes.

Almirante da reserva, Flávio Rocha é considerado como uma voz mais moderada. Já Filipe Martins foi aluno do ideólogo de direita Olavo de Carvalho e tem posições mais próximas às do ex-chanceler Ernesto Araújo.