O GLOBO, n 32.357, 10/03/2022. Mundo, p. 16

Bombardeio atinge hospital infantil em Mariupol e fere 17



Moscou alega que havia posições de combate ucranianas na unidade de saúde

O governo ucraniano acusou ontem a Rússia de lançar um ataque aéreo que danificou um hospital infantil e maternidade na cidade portuária de Mariupol, no Sul do país, deixando pacientes sob escombros e ferindo mulheres em trabalho de parto. A Rússia, por sua vez, rebateu alegando que a Ucrânia instalou posições de combate no hospital.

O ataque, que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, chamou de “atrocidade” no Twitter, aconteceu apesar de um acordo de cessar-fogo parcial para permitir a fuga de milhares de civis da cidade, onde, segundo a Cruz Vermelha, as condições são “apocalípticas”.

O governador da região de Donetsk afirmou que, segundo informações preliminares, ao menos 17 adultos ficaram feridos, alguns em estado grave. A prefeitura de Mariupol, que confirmou o ataque, informou ainda não saber o exato número de vítimas, afirmando que “a destruição é colossal” e que o local foi atingido várias vezes. Segundo ele, relatórios iniciais indicavam não haver crianças entre os feridos. Também não teriam ocorridos mortes. A Missão de Monitoramento da ONU na Ucrânia está verificando os números, afirmou seu porta-voz em Genebra.

Logo após o ataque, o porta-voz do Kremlin, Dmitry

Peskov, afirmou que “as forças russas não atacam alvos civis”. A Casa Branca denunciou o uso “bárbaro” da força contra civis na cidade de Mariupol. O Vaticano também condenou fortemente o ataque ao hospital.

— Bombardear um hospital é inaceitável. Não há razões ou motivações para fazer isso — afirmou o secretário de Estado, o cardeal Pietro Parolin.

‘ATAQUES INDISCRIMINADOS’

O ministro de Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, acusou a Rússia de romper o cessar-fogo que permitiria a saída de milhares de civis da cidade portuária, que fica entre áreas separatistas pró-Moscou no Leste da Ucrânia e a Crimeia, anexada pela Rússia em 2014. Por sua vez, o Ministério da Defesa da Rússia culpou a Ucrânia pelo fracasso na retirada.

“A Rússia continua mantendo como reféns mais de 400 mil pessoas em Mariupol, bloqueando auxílio humanitário e a retirada. Ataques indiscriminados continuam”, escreveu Kuleba no Twitter. “Quase 3.000 recém-nascidos não têm remédios e alimentos.”

Autoridades locais dizem que alguns civis deixaram várias cidades ucranianas por meio de corredores humanitários, incluindo para fora de Sumy, no Leste, e Enerhodar, no Sul, mas que as forças russas estão impedindo que ônibus retirem moradores de Bucha, cidade nos arredores da capital, Kiev.

Segundo a Ucrânia ,67 crianças foram morta sem todo o país desde o início da invasão, em 24 de fevereiro, e mais de 1.200 civis teriam sido mortos em apenas em Mariupol. Não é possível confirmar os números de forma independente, mas imagens de satélite mostram danos extensos a casas, blocos de apartamentos, mercados e shopping centers na cidade.

Após os relatos de destruição no hospital em Mariupol, o porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric, reagiu afirmando que nenhuma unidade de saúde “deve ser alvo”.

A ONU e a Organização Mundial da Saúde exigem “o fim imediato dos ataques a instalações de saúde, hospitais, profissionais de saúde, ambulâncias”, disse Dujarric durante sua coletiva de imprensa diária.