Correio Braziliense, n. 22727, 11/06/2025. Economia, p. 10
Inflação recua para 0,26% em maio
Rafaela Gonçalves
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial do país, desacelerou para 0,26%, em maio, ante alta de 0,43%, em abril, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados ontem.
Segundo o órgão, o principal impacto sobre o índice geral veio do aumento nos preços da energia elétrica residencial.
A alta ocorreu devido à entrada em vigor da bandeira tarifária, que passou para o patamar amarelo no mês passado. A mudança ocorre quando os custos de geração estão mais elevados do que o normal, e, com isso, a vigência adicionou um incremento de R$ 1,885 na conta de luz a cada 100 KWh consumidos.
Logo, o custo da energia elétrica residencial passou de uma deflação de 0,08%, em abril, para aumento de 3,62% em maio.
Os dados do IBGE mostraram que dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados, sete registraram aumento dos preços.
A habitação apresentou a maior variação, de 1,19%, e maior impacto no índice de maio, grupo no qual está inserido o preço da energia elétrica, de 0,18 ponto percentual — 50% da variação mensal do IPCA. Em seguida, em destaque no campo das altas, estão a saúde e cuidados pessoais, com avanço de 0,54%.
Alimentos
Uma surpresa positiva foi a desaceleração da inflação dos alimentos, que foi de 0,17% em maio frente a 0,82% em abril, menor variação mensal desde agosto de 2024. Contribuíram para esse resultado as quedas do tomate, do arroz, do ovo de galinha e das frutas. Pelo lado das altas, destacam-se a batata-inglesa, a cebola, o café moído e as carnes.
“A queda nos preços do tomate pode ser explicada por um aumento da oferta devido ao avanço na safra de inverno, movimento inverso no caso da batata-inglesa, onde a safra de inverno ainda não é suficiente para suprir a demanda. Já no caso da cebola, questões relacionadas à importação do produto da Argentina influenciaram no aumento dos preços”, avaliou o gerente da pesquisa, Fernando Gonçalves.
O economista Matheus Pizzani, da CM Capital, destacou que o resultado foi originado, majoritariamente, por movimentos benignos.
“Vale destacar também que, ainda que em menor medida, houve contribuição deflacionária também de itens que até então exerciam maior pressão sobre o orçamento das famílias, como é o caso do ovo de galinha”, apontou.
Pelo lado oposto, há alguns pontos de atenção, de acordo com o especialista, como o café moído e a carne. “Não se encontram nesta situação em função de volatilidade causada por fatores sazonais, refletindo, na verdade, situações mais complexas de oferta e demanda e com probabilidade extremamente elevada de seguirem pressionando para cima o resultado do grupo”, avaliou.
Os grupos transportes e artigos de residência foram os únicos a apresentar variação negativa de 0,37% e 0,27%, respectivamente.
Houve destaque para os recuos na passagem aérea, que teve queda de 11,31%, e dos combustíveis, de 0,72%.
“A queda nas passagens aéreas se deve por ser um período entre as férias de final e início de ano e as do meio do ano, quando as companhias aéreas costumam baixar os preços. Já nos combustíveis, destaque para a redução do álcool hidratado, que é aquele abastecido nos veículos, que sofreu redução na tributação, resultando em um recuo de 5 centavos por litro”, observou o gerente da pesquisa.
Juros
Para os economistas, a desaceleração reforça que o aperto monetário do Banco Central vem surtindo efeito sobre a inflação. O dado veio abaixo das expectativas de mercado. A inflação acumulada em 12 meses ainda segue acima da média, a 5,32%, o que mostra que o desafio de convergência inflacionária não foi superado.
A avaliação é de que a política monetária deve seguir vigilante até que a queda na inflação seja mais consistente, garantindo as condições necessárias para sustentar o crescimento econômico. O dado deve ser considerado na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) marcada para a próxima semana, que vai definir o patamar da taxa básica de juros (Selic), atualmente em 14,75% ao ano.
“Por mais que o resultado do IPCA de maio tenha sido mais favorável, com atividade ainda resiliente e abertura da inflação corrente mostrando os itens sensíveis à política monetária ainda pressionados, mantemos nossa expectativa de alta adicional de 25 ponto-base em junho, com o encerramento do ciclo de alta de juros em 15%”, avaliou Tatiana Pinheiro, economista-chefe da Galápagos Capital.
Carlos Braga Monteiro, CEO do Grupo Studio, observou que a queda nos preços de alimentos no domicílio e a estabilidade nos transportes ajudaram a conter o índice. “O dado reduz a pressão sobre o Copom, que pode adotar uma postura mais cautelosa nas próximas decisões sobre a Selic, favorecendo setores sensíveis aos juros, como varejo, habitação e crédito”, ponderou.