O GLOBO, n 32.357, 10/03/2022. Política, p. 04
Ex—presidente é acionado para conter crise na Bahia
PP ameaça abandonar PT e lançar nome ao governo, abrindo espaço para Bolsonaro; Rui Costa e Wagner estão estremecidos
Para tentar resolver o impasse na sucessão ao governo da Bahia, quarto maior colégio eleitoral do país, o PT escalou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para uma reunião com lideranças do PP baiano, que ameaçou ontem um rompimento com o grupo do governador petista Rui Costa. O encontro, que deve ocorrer até a próxima semana, em São Paulo, busca um alinhamento entre Costa, o senador Jaques Wagner (PTBA) e o vice-governador João Leão (PP), que vêm apresentando divergências entre si.
A crise interna no grupo político que comanda o estado foi evidenciada depois que Wagner desistiu de concorrer ao governo do estado. Com a resistência do senador Otto Alencar (PSD-BA) em assumir o papel — nesta equação, Costa seria o nome do grupo para o Senado —, Wagner anunciou uma troca: Otto tentaria um novo mandato no Congresso, enquanto o governador seguiria no cargo até o fim, sem participar da eleição. A alteração irritou Leão, que esperava assumir o governo assim que Costa deixasse o comando para fazer campanha ao Senado. O governador, por sua vez, também se incomodou com o anúncio.
Ontem, o vice reuniu-se em Brasília com lideranças do PP alinhadas ao presidente Jair Bolsonaro (PL), como o presidente da Câmara, Arthur Lira, e o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, e depois expôs sua insatisfação nas redes sociais. Lideranças petistas resolveram acionar Lula na tentativa de evitar um rompimento com o PP, que poderia desidratar o palanque do PT. Em 2020, o PP foi o segundo partido que mais elegeu prefeitos na Bahia, com 92, enquanto o PT fez 32 prefeituras.
— O presidente Lula vai entrar em campo. Na Bahia, temos um governo de coalizão, que não tem dono. A situação ficou desconfortável depois que Wagner decidiu não ser mais candidato, mas a relação de PT e PP é positiva para todos — afirmou o deputado federal Zé Neto (PT-BA).
Na sequência de publicações, Leão ameaçou um rompimento com o PT em duas direções: com uma candidatura própria ou com o apoio ao pré-candidato do União Brasil, ACM Neto.
Com a elevação da temperatura, Wagner agiu para apaziguar a situação e argumentou que estava pressionado a indicar os caminhos do grupo.
“LEÃOZINHO, ME DESCULPE”
Ao portal “BNews”, Wagner pediu desculpas a João Leão. “Leãozinho, me desculpe. Estou aqui para voltar a conversar. Não deu certo, não deu tempo. Eu tinha que anunciar, como fundador do grupo, um caminho. Continuo disposto a seguir com o PP na aliança. Esta é a minha vontade, a de Rui (Costa) e do PT inteiro”.
A ideia de uma candidatura própria de Leão ao governo foi estimulada pela cúpula nacional do PP, com o objetivo de abrir um palanque para Bolsonarona Bahia. Outro caminho é uma composição com o pré-candidato de oposição ao PT baiano, ACM Neto (União Brasil). Aliados dele têm mantido diálogo com parlamentares do PP, estimulando um rompimento com os petistas.
Diante da relutância de Neto em aceitar presidenciáveis em seu palanque, uma terceira opção avaliada é filiar ao PL, mesmo partido de Bolsonaro, o atual o ministro da Cidadania, João Roma (Republicanos), para lançá-lo ao governo. Diante dessa hipótese, o presidente estadual do PL na Bahia, José Carlos Araújo, entregou ontem sua carta de desfiliação à legenda.