Valor Econômico, v. 22. n. 5426, 27/01/2022, Brasil, A4
Surpresa em prévia da inflação leva mais previsões de IPCA a superar 5%
Anaïs Fernandes e Gabriel Vasconcelos
O IPCA-15 de janeiro, prévia da inflação no mês, surpreendeu ao subir 0,58% - ante mediana de 0,45% no Valor Data -, reforçou a percepção de uma composição ruim do indicador e aumentou a cautela com o IPCA de 2022. Apesar de o cenário contemplar um índice fechado abaixo dos 10,1% de 2021, a persistência de pressões sobre bens industriais e a inércia elevada, confirmados no IPCA-15 deste mês, segundo economistas, devem tornar mais difícil a desaceleração da inflação no ano.
A surpresa com a prévia de janeiro, divulgada ontem pelo IBGE, fez com que instituições financeiras que ainda viam um IPCA de 2022 no teto da meta - de 5%, para um alvo de 3,5% - levassem as projeções além. O Itaú Unibanco e o ABC Brasil elevaram para 5,3%, e o JPMorgan, para 5,2%. Quem já trabalhava com números maiores aproximou-se ainda mais de 6% - a estimativa da Santander Asset Management caminha de 5,5% para 5,7% - ou até ultrapassou a marca, como o Credit Suisse, que espera, agora, IPCA de 6,2% em 2022.
Para o índice cheio de janeiro, as projeções migraram, em geral, de um patamar de 0,45% para algo entre 0,5% a quase 0,6%.
No acumulado em 12 meses, o IPCA-15 até desacelerou pelo segundo mês seguido, de 10,42% até dezembro para 10,2% em janeiro, mas todas as outras métricas acompanhadas de perto pelos analistas e pelo Banco Central pioraram nessa comparação.
Dados da MCM Consultores mostram que a média dos principais núcleos (medidas para tentar suavizar o efeito de itens mais voláteis) foi de 7,44% para 7,76%. A inflação dos serviços passou de 4,77% para 5,11% - considerando só serviços subjacentes (mais sensíveis à atividade), foi de 5,98% para 6,23%. Produtos industriais avançaram de um acumulado de 11,63% até dezembro para 12,31% em janeiro. E o índice de difusão, que mede a proporção de itens com aumento de preços no mês, cresceu de 68,9% para 74,4% -a média histórica é 61,5%, segundo a MCM.
“Tivemos surpresas altistas em diferentes itens”, diz Eduardo Jarra, economista-chefe da Santander Asset. “Qualificaria o resultado como acima do esperado e com uma composição mais desfavorável.”
Em relação ao IPCA-15 de dezembro, que foi de 0,78%, o indicador deste mês também desacelerou. Economistas questionam, porém, a sustentação do movimento, que foi puxado, em grande parte, pela queda de 1,97% nos combustíveis, item que deve voltar a subir em fevereiro. De qualquer forma, transportes (-0,41%) foi o único grupo entre os nove da pesquisa a registrar deflação em janeiro, explicada ainda pelo fator sazonal de queda nas passagens aéreas (-18,2%) - recuo que, para analistas, deveria ter sido até maior.
Além dos transportes, o único grupo cuja inflação desacelerou entre o IPCA-15 de dezembro e o de janeiro foi habitação (de 0,9% para 0,62%). Ainda assim, ele exerceu o terceiro maior impacto no índice (0,1 ponto percentual). Com avanço de 0,97%, alimentação e bebidas deu a maior contribuição (0,2 ponto), mas, neste caso, muitos economistas previam alta até maior. A alimentação no domicílio subiu 1,03%.
O quadro menos positivo para a agropecuária no Brasil deve trazer reflexos aos preços dos alimentos mais no meio do ano, diz Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag. “O cenário é desafiador para a inflação, com serviços e bens industriais ainda indicando pressões, advindas da reabertura da economia e de gargalos nas cadeias, para as quais a ômicron ‘dá uma temperada’ no desbalanço”, acrescenta. Seu IPCA ao fim de 2022, de 5,7%, tem viés para cima.
Dentro de habitação, analistas destacam a alta de 1,55% nos aluguéis residenciais, ante 0,82% em dezembro, como um sinal do impacto da inércia nos preços correntes. “Alguns itens que permanecem por mais tempo dentro da inflação estão mostrando uma cara pior”, afirma Tomás Goulart, economista-chefe da Novus Capital. Ele vê um IPCA de 5,8% neste ano.
Outro exemplo é o avanço de 1,7% no emplacamento e licença de veículos, refletindo o IPVA mais salgado de 2022. Esse número tem implicações para o ano todo, já que, por metodologia, é replicado na inflação de cada mês.