O GLOBO, n 32.357, 10/03/2022. Política, p. 04
JUNTOS, MAS NEM TANTO
Bruno Góes
PT garante apoio de três partidos a Lula; federação com PSB naufraga
O PSB desistiu de formar uma federação com o PT, que deverá caminhar no próximo quadriênio com outros dois partidos, PCdoB e PV. As negociações foram praticamente encerradas ontem, após quatro meses de conversas, sem que as duas principais legendas da esquerda chegassem a acordos na composição de palanques em estados considerados estratégicos para ambas.
Apesar do passo atrás, o apoio do PSB ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva segue bem encaminhado — a legenda deve receber o ex-governador Geraldo Alckmin, provável vice da chapa do petista.
Ao formarem uma federação, as siglas participantes são obrigados a permanecer juntas por pelo menos quatro anos. Nesse modelo, trabalham como se fossem um só partido, escolhendo candidatura única em eleições majoritárias e atuando em conjunto no Legislativo.
O projeto de união entre PT e PSB empacou diante da falta de consenso em estados como Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo, onde os dois partidos resistiam a abrir mão da cabeça de chapa ao governo estadual. No principal estado do país, os petistas apostam na candidatura de Fernando Haddad, e o PSB, em Marcio França.
No Rio e em Pernambuco, os impasses foram resolvidos, e o PT apoiará os nomes do PSB, que ainda aguarda a adesão petista no Espírito Santo, no Rio Grande do Sul, na Paraíba e no Acre.
Além disso, pessebistas entregaram uma lista de exigências sobre a estrutura da futura federação. Algumas delas não foram bem recebidas
pelos petistas. Entre as demandas, estava o formato da composição da assembleia-geral dos partidos. O colegiado deveria considerar, além do número de deputados, a quantidade de prefeitos e vereadores eleitos por partido em 2020.
— A definição, no momento, é dos três partidos: PT, PV e PCdoB. O PSB, neste momento, não tem a intenção de participar. (Vamos) manter o diálogo entre os partidos, mas neste momento não tem a decisão (do PSB para participar da federação) — disse o presidente do PSB, Carlos Siqueira.
DILMA NA TV
A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, leu uma nota e afirmou que a legenda comandada por ela continuará dialogando com o PSB para sacramentar alianças Brasil afora, independentemente do naufrágio do plano de federação. Ela reconheceu, contudo, que ainda há entraves a serem superados.
— O presidente Siqueira relatou (a proximidade de PT e PSB) nos estados. Nós estamos apoiando o PSB no Rio, Maranhão e Pernambuco. No Espírito Santo, temos uma discussão. E vamos continuar a discussão. Não ter a federação não afasta as alianças estaduais. É um patamar de coligação, que é diferente. Mas achamos que é importante —afirmou Gleisi.
Depois da reunião, PT, PCdoB e PV divulgaram um comunicado para informar que vão formar a federação.
Em outra negociação, dirigentes de PT e PSOL se reuniram ontem. Os petistas receberam documento com pontos que o PSOL deseja que sejam atendidos, como a revogação das reformas trabalhista e da Previdência, além do teto de gastos, mas isso não deve impedir o apoio a Lula.
Para além das discussões sobre alianças, o PT decidiu exibir a ex-presidente Dilma Rousseff como uma das personagens das peças publicitárias que a legenda exibirá a partir deste mês. A decisão contraria uma ala significativa da sigla, favorável a esconder a imagem da correligionária, que pouco apareceu em propagandas da legenda desde 2016, quando sofreu o impeachment.