O GLOBO, n 32.357, 10/03/2022. Política, p. 07

Aras diz que mulheres têm “O prazer de escolher cor da unha”

André de Souza


Declaração foi dada no dia que marca a luta por igualdade de direitos. Após repercussão negativa, PGR disse ter sido “mal compreendido'

No Dia Internacional da Mulher, na última terça-feira, o procurador-geral da República, Augusto Aras, afirmou que elas têm “o prazer de escolher a cor da unha” e “o sapato que vão calçar”. A declaração gerou reações e fez com que ele publicasse um vídeo ontem dizendo que foi “mal compreendido”.

A ANPR Mulheres, que integra a Associação Nacional dos Procuradores da República, destacou, em nota, a importância de combater estereótipos, embora não tenha citado o episódio envolvendo Aras.

Aras não foi a única autoridade a cometer uma gafe no Dia Internacional da Mulher. Em um evento para marcar a data, o presidente Jair Bolsonaro, ao citar a participação das mulheres no mercado de trabalho, disse que hoje elas estão “praticamente integradas à sociedade”.

— É um dia de homenagem à mulher (...) À mulher que tem o prazer de escolher a cor da unha que vai pintar. À mulher que tem o prazer de escolher o sapato que vão calçar. Pouco importa que tipo de escolha ela faça — disse Aras, durante um seminário.

Em outro momento, ele afirmou que as mulheres são “cidadãs plenas de cidadania, inclusive para exercer os mais altos cargos da República”.

Ontem, após a repercussão negativa, o procurador-geral da República tentou se justificar:

— De forma alguma quis diminuir o papel que a mulher sempre teve em nossa sociedade. Apenas destaquei que é possível buscar qualquer posição até o mais alto posto da República sem abrir mão de sua feminilidade.

A declaração de Aras provocou reação no próprio Ministério Público. “Reforçar estereótipos femininos, no âmbito do Ministério Público Federal, invisibiliza os relevantes trabalhos desenvolvidos pelas procuradoras da República e reduz o papel que desempenhamos na instituição”, diz trecho da nota da ANPR Mulheres.

Na terça, Aras disse que há na gestão do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e ProcuradoriaGeral da República (PGR) “muitas mulheres contributivas para o sucesso das nossas instituições”. Mas citou um estudo do CNMP mostrando que as mulheres ainda são minoria nos cargos de direção no Ministério Público brasileiro. Desde a Constituição de 1988, 52 mulheres ocuparam o cargo de procuradora-geral de uma unidade do MP, contra 240 homens.

— É urgente a adoção de medidas que garantam maior participação e, com isso, igualdade de gênero em nossa instituição —disse Aras.