Correio Braziliense, n. 22728, 12/06/2025. política, p. 3

As muitas demandas do agro

Wal Lima, Francisco Artur De Lima, Iago Mac Cord

 

Parlamentares e especialistas no agronegócio convidados para o 2º Summit Brasília, ontem, comentaram questões que afetam o setor, além da alta de impostos proposta pelo governo federal.

O senador Zequinha Marinho (Podemos-PA), presidente da Comissão de Agricultura e Reforma Agrária no Senado Federal, ressaltou os contrastes da produção agropecuária nacional: o país é uma potência global no agronegócio, porém milhões de brasileiros ainda convivem com a insegurança alimentar.

“A força do agro com relação à segurança alimentar é inquestionável, mas precisamos começar reconhecendo a insegurança alimentar que persiste em várias regiões do país. E não é culpa do produtor. É resultado de uma estrutura econômica que não garante a renda e a oportunidade para todos levarem alimento para casa”, afirmou.

Citando dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o senador destacou que o Norte do país lidera os índices de insegurança alimentar grave, com 16% dos domicílios em situação crítica, seguido pelo Nordeste (14,8%). Em contraste, as regiões Sul e Sudeste registram taxas bem menores, de 4,7% e 6,7%, respectivamente.

Zequinha Marinho chamou a atenção para a dependência do Brasil na importação de fertilizantes, fundamentais para manter a alta produtividade do agro.

“O Brasil precisa acordar. Temos riquezas no subsolo que podem nos garantir independência para produzir com autonomia. Não podemos continuar dependentes do exterior para algo tão estratégico”, reforçou.

O senador também mencionou o problema da infraestrutura logística do país, especialmente nas regiões produtoras do Norte e Centro-Oeste. Citou a importância da conclusão da Ferrogrão, projeto de ferrovia que conectará Mato Grosso aos portos do Pará. “Com a Ferrogrão, vamos conseguir colocar nossos grãos na Europa com preços mais competitivos. Isso muda o jogo”, afirmou.

A questão da infraestrutura também mereceu atenção do senador Irajá Silvestre (PSD-TO), titular da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Ele lembrou que a Hidrovia do Arco Norte, projeto de mais de 30 anos, recentemente recebeu a licença de instalação. A hidrovia ligará a Bacia do Rio Araguaia, em Peixe, no Tocantins, ao Porto de Vila do Conde, no Pará, cobrindo mais de 1,2 mil quilômetros de rios navegáveis.

Outro ponto defendido pelo parlamentar é a melhoria do ambiente de negócios e investimentos.

Irajá é o autor do Projeto de Lei (PL) nº 1963/2019, que regulamenta a aquisição de terras por estrangeiros. O projeto estabelece critérios, limites proporcionais e foco no investimento produtivo, buscando atrair capital, especialmente para regiões com potencial no Norte e CentroOeste. “O Brasil não estará abrindo mão de sua soberania nacional”, disse. “Pelo contrário, estará induzindo o investimento e garantindo mais alimento de qualidade para a população brasileira”, emendou o senador. O PL 1963/2019 já foi aprovado no Senado e está em discussão na Câmara dos Deputados.

O ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues e o presidente do Instituto da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e ex-ministro da Previdência Roberto Brant também participaram do debate. Brant classificou o agronegócio brasileiro como pilar da segurança alimentar mundial.

“O mundo vai crescer principalmente em países da África Subsariana e no Sudeste, no sul da Ásia. Esses 800 milhões de novos habitantes estarão ali até 2033.

E são essas as regiões do mundo em que estão previstos os maiores crescimentos econômicos nos próximos 10 anos”, descreveu.

“Então, é preciso expandir o agronegócio sustentavelmente, notadamente por meio do aumento extraordinário da produtividade”, acrescentou.

Na avaliação do representante da CNA, o agro brasileiro deve intensificar o acesso a outros mercados.

“A China é uma nação que tem um pensamento estratégico muito forte. Eles jamais poderão admitir dependerem 80% ou 90% da importação de soja do Brasil. Nós (o agro) temos de ir para outros países da Ásia, ir para a Índia e descobrir novos mercados”, projetou Brant.

Desmatamento

Embaixador da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), o ex-ministro Roberto Rodrigues acredita que o agronegócio brasileiro deve fomentar o combate ao desmatamento e a outras práticas ilegais como queimadas.

“Precisamos acabar com o desmatamento ilegal. Essas imagens prejudicam a imagem do agronegócio no mundo. Isso precisa ser fiscalizado porque o nosso agro não apoia ilegalidades. O agro é paz”, afirmou. Rodrigues ainda elegeu o agro como setor capaz de atacar o que classificou como “os quatro cavaleiros do apocalipse”: insegurança alimentar, crise energética, mudanças climáticas e desigualdade social.

O head do Lide Agronegócios, Francisco Matturro, por sua vez, defendeu a intensificação sustentável da produção no campo brasileiro por meio de tecnologias como o plantio direto, a segunda safra e os sistemas integrados de produção. Com foco na recuperação de pastagens e na adoção de modelos como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), Matturro destacou o potencial do Brasil para elevar a produtividade, reduzir emissões e transformar a realidade socioeconômica de diversas regiões rurais.

O executivo ressaltou que o Brasil pode plantar e produzir o ano todo. Ele ainda fez um apelo pela mudança do ano-safra, que hoje segue o calendário civil com base em um Manual de Crédito Rural de 1965, ajustado para uma realidade de safra única.

Na avaliação do presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Galassi, o varejo tem relevância na cadeia do agronegócio, contribuindo para a segurança alimentar.

Ele citou dados para ressaltar o potencial de consumo do mercado doméstico, e por conseguinte, o papel do setor supermercadista para combater a insegurança alimentar. “Falar de segurança alimentar é falar de três pilares: sortimento, variedade e acessibilidade.

A disponibilização de produtos que nós fazemos em todo o país depende de uma cadeia nacional de abastecimento”, disse Galassi. Ele lembrou que 72% de toda a carne bovina produzida no Brasil é consumida no país. “Nosso compromisso é com a segurança alimentar e a saúde das famílias brasileiras. E isso começa na produção, passa pelo abastecimento e chega nas gôndolas do supermercado”, frisou.

Ela ainda criticou as operadoras de vouchers alimentação e refeição, classificando a intermediação financeira como “sanguessuga” do sistema.