O GLOBO, n 32.357, 10/03/2022. Brasil, p. 09
O CAMINHO DO OURO
Aguirre Talento e Eduardo Gonçalves
PF detecta pistoleiros, identidade falsa e dinheiro ViVO em mineração ilegal
Primeiro, pistoleiros ameaçam moradores de zonas rurais onde há potencial para mineração. Em seguida, um emaranhado de empresas de fachada e pessoas com identidades falsas se articula para extrair ilegalmente o ouro em terra indígena e vendê-lo a grandes centros do país, como São Paulo e Goiânia, ou até mesmo para a Europa. Por último, o dinheiro circula por meio de saques em dinheiro vivo que chegam a cifras de milhões de reais e resultam na compra de bens de luxo, geralmente colocados em nome de laranjas.
Esse método é descrito pela Polícia Federal em uma das mais recentes investigações sobre mineração ilegal no Sul do Pará, em lavras situadas principalmente na terra indígena Caiapó. A operação para desbaratar a organização criminosa foi deflagrada em outubro pela PF e batizada de Terra Desolata (expressão em italiano para “terra devastada”). Foram cumpridos 62 mandados de busca e apreensão e 12 mandados de prisão preventiva. As investigações continuam.
O plenário da Câmara dos Deputados aprovou ontem o regime de urgência para a tramitação do projeto de lei que libera a mineração, construção de hidrelétricas e plantação de transgênicos em terras indígenas. Isso significa que a medida pode ir a votação diretamente no plenário sem a necessidade de passar pelas comissões. A aprovação foi no mesmo dia em que uma comitiva de artistas esteve em Brasília para pedir a rejeição de projetos que ameacem o meio ambiente (leia abaixo).
A investigação começou quando um morador do Sul do Pará procurou a Polícia Federal para relatar ter recebido uma oferta de dinheiro em troca de permissão da exploração de minérios em seu território. “Diante da negativa, os interessados na garimpagem ilícita passaram a fazer ameaças e intimidações, inclusive por meio de pistoleiros”, relatou o delegado da PF Tiago Lima da Silveira, ao pedir à Justiça Federal prisões, buscas e apreensões.
SAQUES DE R$ 16 MILHÕES
A PF também solicitou ao Coaf os dados sobre a movimentação financeira dos suspeitos e descobriu um fluxo milionário de recursos, o que demonstrava a alta rentabilidade da atividade ilícita. Um dos alvos movimentou R$ 125 milhões em um período de três anos, além de ter registrado saques em espécie de R$ 16 milhões, segundo o conselho responsável por levantar movimentações financeiras suspeitas.
Os investigados são suspeitos de crimes ambientais, lavagem de dinheiro, crimes contra a ordem econômica e organização criminosa.
Alguns dos alvos também já tinham sido alvos de outros inquéritos. Entre eles, está um policial militar que foi preso pela Polícia Civil em 2016, acusado do sequestro e morte de um pecuarista. O mesmo PM é citado em um inquérito da PF de 2015 por tráfico de drogas e armas no Sul do Pará. Segundo as investigações, ele seria dono de retroescavadeiras em garimpos na terra dos Caiapó.
OSTENTAÇÃO NAS REDES
Os participantes do esquema até mesmo exibiam nas redes sociais imagens da atividade de exploração de ouro ilegal ou dos bens de luxo que obtinham. Um dos alvos do inquérito, Hailton Monteiro de Almeida, teria movimentado cerca de R$ 4 milhões em um período de quatro meses e publicou uma foto em uma rede social mostrando duas barras de ouro, conta a PF.
“Hailton não possui qualquer vínculo empregatícios, nem é sócio ou administrador de qualquer empresa. Entretanto, exibe nas redes sociais veículos de luxo, aeronaves, máquinas do tipo escavadeiras hidráulicas, e até mesmo barras de ouro”, diz o relatório. Segundo a Polícia Federal, ele ainda foi investigado em outro inquérito por fraudes bancárias contra a Caixa Econômica Federal. A defesa de Hailton não foi localizada para que pudesse comentar as acusações.
Na outra ponta do esquema, uma das empresas compradoras, em São Paulo, funciona como filial de uma companhia italiana e serviria para adquirir o ouro ilegal no Brasil e enviá-lo para a Europa. O Coaf detectou movimentações no total de R$ 2 bilhões.