O GLOBO, n 32.357, 10/03/2022. Brasil, p. 10

Reality de merendeiras é temperado com falas azedas de Ribeiro

Arthur Leal


Ministro da Educação volta a criticar o ensino de diversidade de gênero a crianças em lançamento de programa de televisão

Era para ser um momento de celebração: o Ministério da Educação apresentou ontem o “Merendeiras do Brasil”, uma competição no estilo do programa “MasterChef” envolvendo 15 merendeiras de escolas públicas brasileiras, que irá dar um prêmio em dinheiro e uma viagem à que melhor preparar refeições para os seus alunos. Mas a iniciativa do MEC e do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, que será gravada e depois exibida aos domingos, em oito episódios, na Rede TV, teve outro sabor com as declarações azedas do ministro Milton Ribeiro no evento, criticando o ensino da diversidade sexual nas escolas.

Ao dirigir-se às merendeiras, Ribeiro afirmou que, além de preparar os alimentos, é um papel delas cuidar para que as crianças não sejam “incentivadas” a mudar de gênero.

— Não vamos permitir que a educação brasileira vá por um caminho de tentar ensinar coisa errada para as crianças. Coisa errada se aprende na rua. Dentro da escola, a gente aprende o que é bom, o correto, o civismo, o patriotismo. Tem um grupo da população que infelizmente me critica, mas tenho certeza de que as merendeiras, mães, avós estão comigo. Não vou permitir que ninguém violente a inocência das crianças nas escolas públicas. Esse é um compromisso do nosso presidente. Não tem esse negócio de ensinar “você nasceu homem, pode ser mulher”. Respeito todas as orientações. Mas uma coisa é respeitar, incentivar é outro passo — disse o ministro, diante das participantes.

Ribeiro acrescentou que não tem vergonha de ser contrário à educação sexual de gênero às crianças nas escolas. O ministro lembrou de uma denúncia contra ele feita pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal por homofobia, a partir de declarações de 2020 em que ligou homossexualidade a famílias desajustadas.

— Eu respeito, e tenho dito isso. Mas não vou permitir que, com crianças de 6 a 10 anos, um professor chegue e diga que se ela nasceu homem, se quiser pode ser mulher. Isso eu falo publicamente mesmo. Por isso que meu processo já está lá no STF. Não tenho compromisso com o erro. Temos que respeitar todos, nosso país é laico, mas tenho certeza de que as merendeiras também têm esse cuidado todo especial. Não apenas com o que se come, mas com o que se aprende intelectualmente —completou.

Quem deve ter seu momento no “Merendeiras do Brasil” é a primeira-dama Michelle Bolsonaro. Michele tem sido lançada como uma carta na manga do presidente Jair Bolsonaro (PL) para tentar diminuir a rejeição entre as mulheres em um ano eleitoral. A informação sobre a possível participação foi dada pelo ministro, que revelou ter convidado a primeira-dama para ser uma espécie de madrinha do programa.

De acordo com o MEC, a seleção das participantes foi feita com base em seus desempenhos no Programa Nacional de Alimentação Escolar. São três mulheres de cada região do país, que representam cidades como Mogi das Cruzes (SP), Vassouras (RJ), Maracaju (MS) e Sorriso (MT). As merendeiras serão submetidas a diferentes provas culinárias, num formato parecido com o de outras competições de cozinheiros.