O GLOBO, n 32.357, 10/03/2022. Mundo, p. 18
EUA e Alemanha descartam envio de aviões à Ucrânia
Polônia lançou proposta, e Zelensky insiste, mas os dois países apontam risco de confronto direto entre Otan e Rússia
Os EUA e a Alemanha rejeitaram ontem a proposta da Polônia de entregar caças MiG-29 ao Exército dos EUA para que, a partir da base americana de Rammstein, que fica em território alemão, fossem transferidos para a Ucrânia. Como a frota ucraniana já tem as mesmas aeronaves, não seria necessário um treinamento adicional dos pilotos locais.
Os serviços de Inteligência dos EUA acreditam que a transferência desses aviões de combate “poderia levar a uma significativa reação russa, que aumentaria a perspectiva de uma escalada militar com a Otan”, declarou o porta-voz do Pentágono, John Kirby.
—Portanto, também avaliamos que a transferência dos Mig-29s à Ucrânia representaria um alto risco—disse.
Kirby também afirmou que as aeronaves de combate representariam uma mudança pequena para a Ucrânia em relação às capacidades militares da Rússia, afirmando que os EUA apoiam o fornecimento de outros tipos de armas.
Mais cedo, em um vídeo publicado no aplicativo Telegram, o presidente Volodymyr Zelensky havia pedido aos países ocidentais que tomassem uma decisão “rápida” sobre a proposta polonesa, solicitando às nações da Otan, a aliança militar ocidental, que “enviem seus aviões”. Em seguida, o governo russo alertou que a proposta polonesa criaria um “cenário potencialmente perigoso”.
A decisão definitiva do Pentágono ocorreu após o governo americano dar respostas aparentemente dúbias sobre a oferta de Varsóvia. Na terça, Kirby já havia sugerido que rejeitava a proposta, descrevendo-a como não “sustentável” e pontuando que Washington continuaria em contato com Polônia e outros membros da Otan a respeito da questão.
No entanto, a Casa Branca e o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, haviam adotado uma posição menos enfática. A porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, disse que autoridades americanas continuavam em contato com a Ucrânia e com os aliados da Otan sobre o envio de caças, afirmando que ainda havia questões logísticas a serem examinadas. Blinken seguiu a mesma linha, dizendo que a questão era complexa e que os EUA seguiam em consulta com a Polônia e outros membros da Otan.
SCHOLZ APONTA LIMITES
Já o chanceler alemão, Olaf Scholz, descartou de forma clara a possibilidade de os caças serem enviados à Ucrânia via Alemanha. Em uma entrevista coletiva com o primeiro ministro canadense, Justin Trudeau, Scholz afirmou que a Alemanha forneceu à Ucrânia todos os tipos de equipamentos de defesa.
— Mas também é verdade que temos que considerar com muito cuidado o que fazemos concretamente e, definitivamente, aviões de guerra não fazem parte disso —pontuou.
A Otan já enviou, por exemplo, mais de 17 mil armas antitanque ao governo de Kiev. Por outro lado, rejeitou um pedido de Zelensky de criar uma zona de exclusão aérea sobre a Ucrânia, já que isso colocaria aeronaves russas e da aliança frente a frente, com efeitos potencialmente catastróficos.