Correio Braziliense, n. 22728, 12/06/2025. Economia, p. 7
Haddad rebate críticas a medidas
Rafaela Gonçalves, Israel Medeiros
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, voltou a defender, ontem, perante deputados, na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara, as propostas de alterações a serem feitas na tributação sobre a renda, como a que isenta do Imposto de Renda (IR) quem ganha até R$ 5 mil e a que tributa quem ganha mais. Entre as medidas defendidas por Haddad na audiência pública estão a MP e o decreto publicados mais tarde, ao fim da noite.
Segundo o chefe da Fazenda, as medidas visam “corrigir distorções no sistema” e não representam um aumento da carga tributária.
“Eu sei que, de domingo para cá, muita gente veio para Brasília, para conversar comigo, para conversar com vocês (deputados), para falar de quão injusto é pagar Imposto de Renda”, disse, em referência à reunião que ele teve com lideranças partidárias, na casa do presidente da Câmara Hugo Motta (Republicano-PB), no último domingo, para tratar de medidas fiscais.
“Nós não estamos falando de quem paga Imposto de Renda.
Nós estamos falando de quem não paga nem 10% de alíquota efetiva, e essa pessoa ganha mais de 1 milhão de reais de renda por ano.
A alíquota efetiva média de quem ganha mais de 1 milhão de reais por ano é 2,5%. Existe alguma coisa errada com o Brasil”, disse, comparando essa situação à dos assalariados, que pagam 27,5% do IR, recolhendo direto na folha.
Desde que as medidas foram anunciadas, o ministro tem recebido reclamações tanto do setor produtivo quanto do mercado financeiro.
Entidades relacionadas aos setores afetados pelo aumento de impostos afirmam que as medidas da Fazenda podem encarecer os preços da casa própria e dos alimentos no país.
Segundo disse o ministro, ontem, a renúncia fiscal com esses papéis chega a R$ 41 bilhões, valor superior ao orçamento anual do seguro-desemprego e três vezes maior que o do programa Farmácia Popular. Ele afirmou, ainda, que a maior parte dos benefícios desses papéis não chega ao produtor final. “Não tem sentido dizer que o governo quer prejudicar a construção civil.”
Reforma estruturante
Indagado pelo deputado Pedro Paulo (PSD-RJ), um dos autores do requerimento que levou Haddad à Comissão, sobre a necessidade de encaminhar propostas que contemplem corte de gastos, Haddad afirmou que o governo está aberto a discutir, caso o Congresso inclua no debate temas como o fim dos supersalários e aposentadoria dos militares. “Eu faço a defesa de que o orçamento equilibrado tem que ser uma perseguição e uma convicção e de que é importante o superavit para estabilizar, ou pelo menos diminuir a velocidade por um tempo do crescimento da dívida e sustentar esse menu enorme de escolhas de políticas sociais que atendem às pessoas que mais precisam”, defendeu o deputado Pedro Paulo, após preconizar a construção de “um pacto entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, para que a gente possa se sentar à mesa de forma verdadeira e franca” .
Em sua resposta, Haddad disse que está disposto a um acordo. “O presidente Hugo Motta nos convidou para abrir uma negociação com os líderes sobre o tema despesa primária. Então, nós temos um encontro marcado, só falta fixar a hora e o local, mas temos o compromisso de nos reunirmos para — olho no olho — discutir os seguintes pontos: o que está na mesa? O que nós vamos, de fato, discutir? Nós vamos enfrentar a questão do supersalário ou não? Nós vamos enfrentar a questão da aposentadoria de militares ou não? Nós vamos pôr ordem nos cadastros dos programas sociais ou não? O que está na mesa?”.
Bate-boca
A ida do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, à Câmara dos Deputados terminou em bate-boca depois que deputados do PL criticaram o governo e se retiraram do Plenário sem ouvir as respostas do ministro. Haddad classificou a atitude como “molecagem” e eles retornaram para retrucar.
O ministro havia dito que os deputados Nikolas Ferreira (PL -MG) e Carlos Jordy (PL-RJ) fizeram “molecagem” ao elaborar perguntas na sessão e depois deixar o plenário sem ouvir as respostas.
“Agora aparecem aí dois deputados, fazem as perguntas e fogem dos debates. É um pouco de molecagem, isso não é bom para a democracia”, disse.
Jordy devolveu a ofensa: “Quero dizer, ministro, que o moleque é você”, declarou. Nikolas, que já tinha usado a palavra, pediu uma questão de ordem para pedir a retirada das falas de Haddad das notas taquigráficas.
A audiência foi suspensa sem que os demais parlamentares inscritos perguntassem.