O GLOBO, n 32.357, 10/03/2022. Mundo, p. 17
Ucrânia lança alerta sobre corte de luz em Chernobyl
AIEA diz que não há impacto crítico na segurança, mas mostra preocupação com possível estresse de equipes de operação
A Ucrânia alertou, ontem, sobre o perigo de um vazamento de radiação depois que a eletricidade foi cortada na usina nuclear de Chernobyl, no que disse ser uma “provocação perigosa ”, durante os combates entre tropas ucranianas e forças russas que estão ocupando a estação de energia.
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), no entanto, não viu “nenhum impacto crítico na segurança” da usina. Horas depois, a AIEA demonstrou preocupação com a “súbita interrupção” do fluxo de dados em Chernobyl e na usina nuclear de Zaporíjia, a maior instalação de energia nuclear da Europa. Em Zaporíjia, um transformador foi retirado e passa por reparos de emergência após danos no sistema de refrigeração.
A ocupação russa da usina, na semana passada, fez soar o alarme quando um dos edifícios do complexo que abriga seis reatores foi incendiado. O local permanece sob controle de soldados russos.
LINHA DE TENSÃO ATINGIDA
Já a área da usina de Chernobyl foi tomada pelas forças russas em 24 de fevereiro. De acordo com a empresa nuclear estatal da Ucrânia, a Energoatom, uma linha de alta tensão foi danificada durante os combates e o trabalho para reparar a conexão e restaurar a energia da usina não pôde ser realizado. Segundo a AIEA, graças à temperatura da piscina onde está o material radioativo e ao volume de água para resfriamento na planta, é possível controlar o calor da usina sem necessidade de energia elétrica.
“O local também possui fontes de alimentação de emergência de reserva com geradores a diesel e baterias ”, disse em nota o diretor-geral da agência, Rafael Mariano Grossi.
Grossi, no entanto, afirmou que é provável que a falta de energia leve a uma maior deterioração da segurança operacional no local e “crie mais estresse para os cerca de 210 especialistas técnicos e guardas ”, que não puderam fazer rodízio nas últimas duas semanas.
Apesar dos reatores não estarem mais em operação há décadas, é preciso resfriar o combustível nuclear que ainda está armazenado no complexo e, para isso, é preciso ter acesso a energia. A Energoatom diz que “substâncias radioativas” podem eventualmente ser liberadas, ameaçando outras partes da Ucrânia e da Europa. Segundo o ministro das Relações Exteriores, Dmytro Kuleba, os geradores a diesel poderiam alimentar a usina por apenas 48 horas.
“Depois disso, os sistemas de resfriamento da instalação de armazenamento de combustível nuclear usado pararão, tornando iminentes os vazamentos de radiação”, disse no Twitter. “Peço à comunidade internacional que exija urgentemente que a Rússia cesse o fogo e permita que as unidades de reparo restaurem o fornecimento de energia.”
Um especialista nuclear disse que há motivos para preocupação. Uma questão-chave seria a rapidez com que a energia pode ser restaurada.
— Cortes de energia em instalações nucleares são potencialmente muito perigosos —disse o especialista, sob anonimato. — O corte de energia pode levar à evaporação da água na instalação de armazenamento e à exposição de barras de combustível. Elas podem derreter e isso pode levar a liberações significativas de radiação.
MODERNIZAÇÃO
A agora extinta usina nuclear fica a cerca de 108 quilômetros da capital ucraniana. Um de seus quatro reatores explodiu em 1986, expelindo nuvens de radiação por toda a Europa. O local ainda é radioativo, e uma enorme cúpula protetora cobre o reator destruído. Os atuais reatores são muito mais seguros do que aqueles de “primeira geração” de Chernobyl, que tinham um sistema de refrigeração defeituoso e não possuem um prédio de contenção para proteger o núcleo.
Nos últimos anos, a Energoatom gastou milhões de dólares para implementar modernizações de segurança em todas as plantas.