O GLOBO, n 32.357, 10/03/2022. Mundo, p. 16
RÚSSIA DIZ QUE NÃO QUER OCUPAR UCRÂNIA NEM DERRUBAR GOVERNO
ACENO OCORRE NA VÉSPERA DE REUNIÃO
Os objetivos da Rússia em sua invasão militar da Ucrânia não incluem derrubar o governo nem ocupar o país, disse a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, Maria Zakharova, ontem, véspera do encontro entre os chanceleres dos dois países, que deverá acontecer hoje na Turquia.
— [O objetivo do Exército] não é ocupação da Ucrânia ou a destruição de seu Estado ou a derrubada do governo. Não é dirigido contra a população civil —disse Zakharova em entrevista coletiva.
A porta-voz da Chancelaria afirmou que Moscou alcançará seu objetivo de impor um status neutro à Ucrânia — o que significa que o país não poderia entrar para a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, a aliança militar ocidental comandada pelos EUA) —e que espera fazer isso por meio de negociações. Ela afirmou que “houve algum progresso” nas negociações até agora, mas espera mais avanços nas próximas rodadas.
—Paralelamente à operação militar especial [nome que as autoridades russas usam para referir-se à invasão da Ucrânia] também acontecem negociações com a parte ucraniana para acabar o quanto antes com o banho de sangue sem sentido e a resistência das Forças Armadas ucranianas. Alguns progressos foram feitos —afirmou Zakharova.
‘EXPECTATIVAS BAIXAS’
Enquanto isso, o Kremlin informou que o presidente Vladimir Putin conversou com o chanceler alemão, Olaf Scholz, sobre os “esforços diplomáticos” em curso.
Hoje, está prevista uma reunião entre os chanceleres dos dois países, o russo Sergei Lavrov e o ucraniano Dmytro Kuleba, às margens de uma conferência internacional na Turquia. Ontem, Kuleba confirmou o encontro na Turquia e pediu que Lavrov atue “de boa-fé, e não de uma perspectiva de propaganda”.
— Mas digo francamente que minhas expectativas em relação a essas conversas são baixas. Estamos interessados em um cessar-fogo, em libertar nossos territórios, e o terceiro ponto é resolver as questões humanitárias — afirmou em vídeo.
Na terça-feira, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, disse em entrevista à TV americana ABC que “moderou” a demanda do país de entrar na Otan e que está disposto a chegar a um “compromisso” sobre os territórios separatistas pró-Rússia no Leste ucraniano.
Em entrevista à agência Bloomberg ontem, Ihor Jovkva, vice-chefe de gabinete de Zelensky, afirmou que a Ucrânia está aberta a discutir a exigência de neutralidade da Rússia desde que receba garantias de segurança, mas não cederá “um só centímetro” de território.
— Certamente, estamos prontos para uma solução diplomática —disse Jovkva.
Já o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, afirmou que “a Turquia pode conversar com a Rússia e a Ucrânia ao mesmo tempo”.
—Estamos trabalhando para evitar que a crise se transforme em tragédia —disse.
Um país neutro — status que a Rússia exige da Ucrânia — é um Estado que se mantém à parte de conflitos e evita entrar em alianças militares como a Otan. O termo, no entanto, é ambíguo, e diferentes países interpretam a neutralidade de forma distinta. Alguns são desmilitarizados, como a Costa Rica, enquanto outros, como a Suíça, seguem a “neutralidade armada” e têm Forças Armadas para autodefesa.
2,2 MILHÕES DE REFUGIADOS
Autoridades ucranianas e russas já fizeram três rodadas de negociações na fronteira entre Bielorrússia e Polônia para conversar sobre o fim dos combates. A porta-voz Zakharova disse que outra rodada será focada em corredores humanitários para retirar civis. Ontem, Kiev e Moscou concordaram em criar rotas de fuga a partir de seis cidades. Desde o fim de semana, iniciativas semelhantes tiveram sucesso apenas parcialmente.
Zakharova afirmou que cerca de dois milhões de ucranianos querem fugir para a Rússia. Ontem, o Ministério de Defesa russo disse que 180 mil pessoas foram retiradas da Ucrânia para a Rússia desde o início da invasão, em 24 de fevereiro.
A agência de refugiados da ONU, Acnur, estimou ontem que o número total de refugiados da Ucrânia em até 2,2 milhões, um crescimento de 200 mil pessoas em comparação à véspera.
Durante o briefing, Zakharova acusou as autoridades de Kiev de bloquear os esforços para remover civis das cidades sob cerco russo.
Sem apresentar provas, Zakharova também acusou os Estados Unidos de conduzir um programa biológico militar na Ucrânia envolvendo patógenos mortais, incluindo peste e antraz. Esta tem sido uma crescente denúncia de Moscou, que é negada por Kiev e que um porta-voz do Pentágono descreveu como absurda.