O GLOBO, n 32.357, 10/03/2022. Economia, p. 15
Centenas de jatos podem ser “confiscados'' pela Rússia
Empresas de leasing não conseguem recuperar aviões avaliados em US$ 10 bi
Empresas de leasing estão em vias de verem centenas de aeronaves Airbus e Boeing de sua propriedade serem “confiscadas” por companhias aéreas russas após seus contratos terem entrado num limbo por causa das sanções ocidentais ao país pela guerra na Ucrânia.
Segundo estimativa da Valkyrie BTO Aviation, uma empresa de financiamento e leasing, há cerca de 500 aeronaves alugadas por companhias aéreas russas. São jatos que, juntos, valem US$ 10,3 bilhões, de acordo com cálculos da Ishka, consultoria do setor de aviação.
Tecnicamente, os aviões arrendados à Rússia podem ser retomados pelas empresas de leasing até o dia 28 de março, segundo as regras previstas nas sanções da União Europeia à Rússia. Mas apenas duas dezenas de aeronaves foram recuperadas, diz Dean Gerber, conselheiro geral da Valkyrie BTO.
A estatal russa Aeroflot e outras aéreas do país já levaram de volta ao território do país a maioria desses aviões.
—O maior medo das empresas (de leasing) é que suas aeronaves tenham ido embora para sempre —afirma Steve Giordano, diretor gerente da americana Nomadic Aviation Group, uma das poucas empresas especializadas na reintegração de posse de aeronaves.
SEGURANÇA EM XEQUE
A resposta russa às sanções econômicas do Ocidente pegou de surpresa a indústria de leasing, ao desrespeitar tratados e convenções internacionais em vigor há décadas. Os tratados garantem às empresas que fazem o leasing o direito de atravessar fronteiras para requisitar aeronaves de clientes inadimplentes.
Essa garantia atraiu diversos investidores, que passaram a ver no leasing de aeronaves uma aposta segura.
Em mensagens enviadas às aéreas russas na semana passada, Moscou exigiu que elas retomassem as aeronaves para território russo e restringissem seus voos a rotas domésticas ou para a aliada Bielorrússia. O objetivo foi justamente evitar a retomada das aeronaves por credores em território estrangeiro, afirma Emily Wicker, advogado na Clifford Chance.
Além disso, Moscou aconselhou as aéreas a fazerem novo registro, na Rússia, de aeronaves de propriedade estrangeira, que tradicionalmente têm registro nas Bermudas. Isso pode dificultar a tentativa dos credores de revogarem as certificações das aeronaves e até impedir o rastreamento da manutenção e conservação dos jatos.
As empresas de leasing que agiram rápido conseguiram fazer o arresto de algumas aeronaves após uma série de manobras jurídicas.
A crise jogou luz sobre o papel da pequena Bermudas. A autoridade de aviação civil da ilha já emitiu certificações para 800 aeronaves, sendo 777 russas.
E põe em xeque outro pilar da aviação comercial: a segurança dos voos. É através das certificações que as empresas acompanham a manutenção e vida útil de todas as peças de uma aeronave.