O Globo, n 32.357, 10/03/2022. Mundo, p. 17
CIVIS IMPROVISAM DEFESA
Yan Boechat Kozelets, Ucrânia
MORADORES DE CIDADES AO REDOR DE KIEV PROMETEM RESISTIR AOS RUSSOS
Enquanto o Exército ucraniano tem conseguido —com equipamento militar de última geração doado pelos Estados Unidos e países da União Europeia —conter o avanço das tropas russas que tentam cercar Kiev, um grupo crescente de civis tem organizado milícias improvisadas na tentativa de proteger pequenas cidades no entorno da capital da Ucrânia.
É um movimento pouco organizado, pouco profissional e fomentado por um sentimento de revolta contra os ataques russos a alvos civis, como o bombardeio a uma maternidade na cidade de Mariupol, ontem. Em cada pequeno povoado, homens de todas as idades têm se armado com o que podem e formado grupos responsáveis por postos de controle, patrulha e inteligência.
ESPINGARDAS VELHAS
Há de tudo. Jovens inexperientes que desfilam orgulhosos pelas pequenas cidades com fuzis AK-47 recém-distribuídos pelo governo, um esforço desesperado para armar a população nos primeiros dias da invasão russa. Idosos armados com velhas espingardas de caça que decidiram não seguir suas famílias em direção ao Oeste do país e se dizem prontos a sacrificar suas vidas. Veteranos da guerra na região de Donbass, no Leste separatista, experientes em combate, e que haviam seguido para a reserva após anos de serviço militar.
Todos garantem estar preparados para repelir a invasão russa a qualquer custo. Prometem atos de bravura, ações heroicas e sacrifícios pessoais em prol da liberdade do país.
—Quase ninguém aqui sabe o que é uma guerra, estão na verdade todos muito assustados, muitos estão com muito medo do que está para acontecer —conta Ihor, um ex-capitão do Exército ucraniano que seguiu para a reserva há poucos anos e decidiu agora se unir à milícia formada por moradores da pequena cidade de Kozelets, distante quase 80 quilômetros ao norte de Kiev.
— Eu tenho experiência, já estive em combate, sei como lidar nesta situação, mas a maior parte dessas pessoas não. Vamos ter que nos unir, unir o que sabemos fazer de melhor para tentar resistir — dizia ele que, apesar de ter um inglês quase perfeito, assegurou jamais ter estado nos Estados Unidos.
FUGA POR ESTRADAS VICINAIS
Kozelets tinha cerca de dez mil habitantes antes de a guerra começar. O município fica às margens de uma importante autoestrada que liga Kiev à fronteira com a Bielorrússia. A cidade está quase toda cercada pelos russos, que avançam com violência sobre Chernihiv, outro município que fica 60 quilômetros em direção ao norte. Os russos cortaram o acesso de Kozelets a Kiev pela rodovia.
—Eles estão a uns 20 quilômetros de nós tanto ao norte quanto ao sul. Conseguimos manter aberto o acesso a Kiev pelas pequenas estradas que margeiam o Rio Dniéper. Mas é impossível saber até quando — dizia o ex-capitão na tarde de ontem na praça central de Kozelets, aparentemente conformado com o destino que o aguarda.
As estradas vicinais, que agora ligam Kozelets a Kiev, tornaram-se também o corredor de fuga de quem conseguiu fugir de Chernihiv nos últimos dias. A cidade tem sido bombardeada de forma violenta pelos russos e, segundo a Anistia Internacional, em apenas um ataque aéreo mais de 40 civis morreram.
— Conseguimos sair hoje (quarta-feira) em um raro momento de calma, estamos há mais de cinco horas na estrada e viajamos apenas cem quilômetros — dizia uma mulher que dirigia um dos inúmeros veículos que eram minuciosamente checados em um posto de controle formado por civis na cidadezinha de Litky.
Ao longo de todas as estradas vicinais, os grupos de milícias civis criaram toda sorte de obstáculos. Cortaram árvores sobre a pista, instalaram postos de controle com estruturas de concreto e montes de terra, minaram os vastos campos que estavam começando a ser preparados para o plantio da primavera.
Em alguns pontos, colocaram grandes desenhos religiosos, talvez com o objetivo de criar, sabe-se lá, alguma comoção entre os soldados russos, tão cristãos ortodoxos quanto os ucranianos desta parte do país. Os tanques ainda não chegaram, e a estratégia, por enquanto, tem se mostrado desastrosa para os motoristas que fogem assustados das áreas de combate utilizando essas estradas vicinais. Ao longo delas, vários carros acidentados estão abandonados nos campos.
NERVOSISMO E ESTRESSE
Nos postos de controle dominados pelas milícias civis é difícil saber quem está mais nervoso: passageiros revistados ou soldados que revistam. Com pouco treinamento militar e inexperiência em situações de alto estresse, muitos desses novos soldados se mostram extremamente nervosos. Não raro apontam as armas para aqueles que chegam aos postos e parecem prontos a disparar diante de qualquer movimento brusco.
Ontem, por pouco, um deles não mata um colega. Por alguma razão, uma gritaria tomou conta do posto de controle, soldados se preparam para o combate contra um inimigo que, naquele momento, ainda não se materializara. Armas em punho, tensão e, então, um disparo.
Uma pequena poeira subiu do muro a poucos centímetros da cabeça de um homem já idoso armado com um rifle. Ao seu lado, um jovem de não mais de 20 anos olhava assustado para sua espingarda de caça. Com o dedo no gatilho, disparou a arma por acidente no momento de tensão. O silêncio foi cortado pela gargalhada do senhor que, por pouco, não perde a vida pelo fogo amigo. Tudo voltou ao normal.