O Globo, n 32.358, 11/03/2022. Economia, p. 12
Após alta, economistas já esperam inflação entre 7% e 8% este ano
Carolina Nalin e Ana Flávia Pilar*
Impacto no IPCA de março pode chegar a 1,5 ponto percentual. Efeitos da guerra da Ucrânia levam analistas a revisar previsões
O reajuste nos preços da gasolina, diesel e GLP (gás), anunciado ontem pela Petrobras e que valerá nas refinarias a partir de hoje, deve ter forte impacto na inflação. Analistas já preveem que, por causa da pressão dos combustíveis e de outras altas que não estavam no radar antes da invasão da Ucrânia pela Rússia, economistas já refazem as contas e estimam que, este ano, a inflação vá superar 7%, podendo chegar até a 8%.
André Braz, coordenador do Índice de Preços da FGV, diz que só o reajuste nos combustíveis anunciado ontem terá impacto de 1,5 ponto percentual no IPCA (índice de preços usado nas metas de inflação do governo) em março e de 0,47 ponto percentual no indicador em abril.
Para se ter uma ideia da magnitude do impacto, o IPCA -15 de fevereiro, ou seja, a inflação acumulada em 30 dias até 15 de fevereiro, foi de 0,99%. Ou seja, só os combustíveis, sem considerar outros preços da economia, farão a inflação de março ficar bem acima disso.
Braz revisou sua projeção para o IPCA fechado no ano de 6,2% para 7,5%.
—A inflação vai mais na direção de 8% no ano. O cenário este ano piorou muito por conta do conflito geopolítico.
Ainda na quarta-feira, antes do anúncio do reajuste nos combustíveis, alguns bancos revisaram suas estimativas para o IPCA, levando em conta a alta do petróleo e os efeitos da guerra. O BNP Paribas calcula que o índice chegue a 7%, ante previsão anterior de 6%.
TRANSPORTE PÚBLICO E FRETE
O Credit Suisse passou de 6,2% para 7% a estimativa para o IPCA em 2022, vislumbrando preços mais pressionados para gasolina e alimentos. O banco suíço colocou viés de alta na projeção e disse que, caso o reajuste compense toda a defasagem para as cotações internacionais, cenário não esperado pela casa, a projeção de inflação passaria para 7,8% em 2022.
Apesar de o reajuste nos combustíveis aplicado pela Petrobras ter chegado a quase 25%, no caso do diesel, analistas calculam que ainda há defasagem nos preços internos.
Os combustíveis foram os principais vilões da inflação em 2021. O etanol disparou 62,23% no ano passado. Já a gasolina, 47,49%. O gás de botijão subiu 36,99%. São custos que influenciam outros preços na economia
Braz explica que o diesel é um dos principais custos do transporte público urbano, e seu aumento pode gerar uma pressão adicional em ano eleitoral para aumento das tarifas de ônibus. Outro fator depressão é o frete, já que o transporte de diversas mercadorias nas rodovias é feito por caminhões, que queimam diesel.
—O efeito indireto do diesel é perverso porque ele espalha as pressões inflacionárias —diz André Braz.
Tatiana Nogueira, economista da XP, manteve a projeção de inflação para 6,2% no ano, dado que o reajuste anunciado pela Petrobras veio dentro das previsões.
A economista avalia que o reajuste da Petrobras pressiona o Congresso para aprovar solução para os combustíveis, dado que ainda há defasagem de 6,5% para o diesel e 10% para a gasolina em relação às cotações internacionais.
— O diesel e a gasolina já vêm de aumentos superiores a 40% do preço final. A continuar essa alta, num momento em que a população já não aguenta pagar, o governo vai intervir sim.
A guerra entre Ucrânia e Rússia é um segundo fator de preocupação para os analistas. Isso porque os preços das commodities agrícolas dispararam no mercado internacional, o que pode afetar as produções brasileiras.