O Globo, n 32.358, 11/03/2022. Economia, p. 14
Ministra defende que fertilizante fique fora de sanções
Eliane Oliveira
Tereza Cristina levará proposta à FAO, com o objetivo de preservar preços de alimentos de punições econômicas e comerciais
Diante do risco de uma inflação mundial de alimentos por causa da escassez e dos elevados preços dos fertilizantes, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, defende que o comércio global desses produtos não seja alvo de sanções econômicas aplicadas contra países em momentos de guerra, ou outras questões geopolíticas. O tema será levado à Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
A crise no abastecimento de fertilizantes começou no ano passado, quando vários países adotaram sanções contra a Bielorrússia por violação de direitos humanos. Após a invasão da Ucrânia, muitas nações decidiram sancionar a Rússia comercialmente. Moscou reagiu suspendendo a exportação de diversos produtos, inclusive fertilizantes, o que pode afetar o Brasil.
—Quando o preço dos fertilizantes sobe, por conta de sanções unilaterais, isso tem impacto direto no preço dos alimentos. E quem mais sofre com essa inflação são os mais vulneráveis — afirmou a ministra.
Tereza Cristina discutirá essa proposta na próxima quarta-feira, em reunião com o diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, a enviada especial para os Sistemas Alimentares do órgão, Agnes Kalibata, e o diretor-geral do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), Manuel Otero.
VISITA A FORNECEDORES
Segundo a ministra, os alimentos não costumam ser usados em sanções, e os fertilizantes poderiam fazer parte dessa regra. Ela falou desse assunto ontem com ministros da Agricultura de Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai, que, segundo fontes que acompanharam os debates, apoiaram a ideia.
Para evitar problemas no plantio da próxima safra, previsto para setembro deste ano, e diante da informação da Associação Nacional dos Difusores de Adubos (Anda) de que o estoque no Brasil só vai durar até junho, a ministra já viajou à Rússia e ao Irã, dois importantes fornecedores.
No sábado, Tereza Cristina embarca para o Canadá, outra possível fonte de fertilizantes.
Hoje será o lançamento do Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), com metas a serem cumpridas entre 2025 e 2050. Conforme O GLOBO antecipou, o plano prevê o aumento de 25% da produção de fertilizantes orgânicos, além de incentivos fiscais e outras medidas para atrair para o Brasil.
— A ministra quer que o boicote à Rússia não ocorra nas relações comerciais. Mas, por enquanto, essa não é uma decisão colegiada, de um organismo internacional, mas de caráter voluntário de alguns países — disse o advogado e professor de Direito da PUC do Paraná, Eduardo Saldanha. —Essa é uma questão bastante complexa.