Valor Econômico, v. 22. n. 5427, 28/01/2022, Empresas, B2
Inadimplência sobe com conta mais cara, diz Abradee
Gabriela Ruddy
Os índices de inadimplência nos pagamentos das contas de luz subiram no último quadrimestre de 2021, período em que as tarifas passaram a contar com a cobrança da “bandeira de escassez hídrica”, um adicional de R$ 14,20 a cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos. O valor foi instituído para ajudar a compensar os maiores custos de geração de energia elétrica com a estiagem que afetou as hidrelétricas. Mas a cobrança, além de piorar os indicadores de pessoas em atraso com as contas, não é suficiente para compensar os custos extras com energia, dizem as distribuidoras.
De acordo com dados da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), a média de contas não pagas entre setembro e dezembro de 2021 foi de 5,89%, acima do percentual médio registrado antes e durante a pandemia. A expectativa, de acordo com o presidente da Abradee, Marcos Madureira, é que os índices voltem a cair neste ano. A cobrança extra nas contas de luz está prevista para durar até abril dependendo das condições hidrológicas.
Segundo a Abradee, o maior aumento na insolvência ocorreu principalmente no segmento residencial
“Houve um aumento pontual da inadimplência em função do impacto do maior custo da energia, mas acreditamos que os patamares vão voltar ao normal com a regularização das bandeiras tarifárias. A pandemia também causou efeitos graves na economia, o Brasil ainda está se recuperando. Esperamos que com a melhora da economia ocorra também uma melhora na inadimplência”, diz.
Os índices de inadimplência são medidos a partir da diferença entre o faturamento e o recebimento das distribuidoras. Nos 12 meses até março de 2020, quando a crise da covid-19 chegou ao Brasil, a média de inadimplência no setor era de 3,76%. Nos primeiros meses da pandemia, a taxa subiu, chegando a 12% em abril de 2020, mas caiu nos meses seguintes. A média da insolvência entre março de 2020 e dezembro de 2021, considerando o aumento causado pelas maiores tarifas, ficou em 4,46%.
O maior aumento na inadimplência ocorreu no segmento residencial, cujo índice de não pagamento médio antes da chegada da pandemia ao país era de 3,35%. Entre setembro e dezembro de 2021, o não pagamento nas contas de luz de residências quase dobrou, chegando a 6,38%. No setor industrial o movimento foi o oposto: nos 12 meses antes de março de 2020, a inadimplência estava em 5,24%, mas caiu para 1,92% nos últimos quatro meses de 2021. A média de não pagamento das contas de luz nas indústrias de março de 2020 a dezembro de 2021 ficou em 2,1%.
Em 2021, o Brasil viveu a pior seca em 91 anos, o que afetou a geração das hidrelétricas e levou à necessidade de acionar termelétricas, mais caras. Para compensar os maiores custos com a energia, a partir de setembro a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciou a cobrança da bandeira tarifária de “escassez hídrica”.
A Enel Brasil também tem oferecido aos consumidores a possibilidade de negociação das dívidas online, por meio de um portal de negociação, disponível nas regiões do Rio, São Paulo, Goiás e Ceará, onde atua. De modo similar, a Neoenergia, que atende a cerca de 15 milhões de clientes em 18 Estados e no Distrito Federal, tem investido na interação por meios digitais, como uma assistente virtual e um chatbot, que juntos fizeram mais de 46 mil negociações em cinco meses.
“A interação com os clientes por meio de canais integrados de atendimento, reforçando a simplicidade e a facilidade das tecnologias digitais, com um atendimento especializado e personalizado estão no cerne do relacionamento com o consumidor”, diz o superintendente de processos comerciais da Neoenergia, Leonardo Moura.
A concessionária carioca Light iniciou em outubro de 2021 uma campanha de negociação de débitos para consumidores com contas vencidas há mais de seis meses. A iniciativa ofereceu descontos de até 95% nas dívidas, inclusive com opção de pagamento no cartão de crédito, com parcelamento em até 24 vezes. Cerca de 43 mil clientes aderiram à renegociação.
O grupo Energisa, que distribui energia a cerca de 8 milhões de consumidores em onze Estados, lançou em 2021 o aplicativo Voltz, que oferece contas digitais e serviços financeiros, além da opção de pagamento de faturas pelo PIX.
De olho nas pessoas não bancarizadas e que costumam pagar as contas em lotéricas, o PIX tem sido adotado por diversas distribuidoras. Segundo Madureira, da Abradee, ainda há grande potencial para crescimento do pagamento instantâneo de contas de luz no país. Para ele, outro fator que pode ajudar a incentivar a quitação das contas é o cadastro positivo, registro de informações sobre consumidores que facilita o acesso ao crédito de clientes com bom histórico de pagamento de contas.
Madureira afirma que, além do aumento da inadimplência, as distribuidoras estão sendo afetadas pois os recursos da bandeira tarifária são insuficientes para compensar as despesas adicionais com a energia, o que criou um déficit de R$ 12,4 bilhões até novembro. A expectativa é que até o fim de fevereiro a Aneel regulamente um empréstimo setorial para ajudar a compensar o valor. “O financiamento é necessário para cobrir o déficit, que já existe. É mais adequado ter esses custos diluídos ao longo do tempo, para que o consumidor não receba o impacto de uma vez”, disse o presidente da Abradee.