Valor Econômico, v. 22. n. 5427, 28/01/2022, Poesia, p. 27

A redescoberta de João Cabral

Dirceu Alves Jr

 

Se o mundo não tivesse parado logo nos primeiros meses de 2020, provavelmente aquele teria sido o ano de celebrar João Cabral de Melo Neto (1920-1999). O centenário do poeta pernambucano precisou de mais tempo para render comemorações e, mesmo que a pandemia ainda não tenha dado trégua, uma onda em torno da memória do escritor comprova a atualidade do seu legado. Livros, espetáculos e até experimentos musicais, terreno a que Cabral bradava aos quatro ventos ter pouca simpatia, ressignificam as criações do autor de “Morte e vida severina”.

Lançada em março do ano passado, “Fotobiografia João Cabral de Melo Neto”, organizada pelo poeta Eucanaã Ferraz, ofereceu pistas de sua intimidade em cerca de quinhentas imagens. O aprofundamento histórico, literário e psicológico, porém, veio com “João Cabral de Melo Neto: uma biografia”, obra densa, publicada pelo professor e pesquisador Ivan Marques em novembro, que supre a lacuna de raras investidas de fôlego - quase nenhuma - em torno da sua personalidade controversa. “Acredito que Cabral não veria com maus olhos estas homenagens, muitas vezes ele reclamava de uma falta de reconhecimento, mas provavelmente ficaria contrariado com as biografias porque sempre fez questão de esconder a sua vida pessoal”, diz Marques.

No livro, a criação da obra-prima “Morte e vida severina”, em 1955, é narrada em detalhes. O poema foi encomendado para um auto de Natal do grupo carioca de teatro O Tablado e tamanho realismo gerou a recusa da diretora Maria Clara Machado. Cabral, decepcionado, relutou em publicá-lo e quase negou a autorização para a histórica montagem paulistana, dirigida por Silnei Siqueira e musicada por Chico Buarque em 1965, aplaudida até pelo público francês. “Embora o personagem Severino não pareça tão esperançoso, nesta encenação, no começo da ditadura militar, se nota uma inflexão otimista e mesmo uma certa mitificação do nordestino, enquanto símbolo de força e resistência”, analisa o biógrafo.

Será no palco do mesmo Tuca, o teatro da PUC, na capital paulista, que Elias Andreato promete dirigir uma nova versão de “Morte e vida severina” a partir de maio. O encenador afirma que a saga do retirante em busca de melhores condições de vida ganhou novos significados diante do sofrimento e da miséria gerada pela pandemia. “O mais cruel é que, antes, os Severinos eram operários, porteiros, profissionais da construção civil e, hoje, em sua maioria, estão completamente invisíveis, jogados debaixo dos viadutos, penando nas favelas”, observa.

Andreato declara que o poema dispensa grandes adaptações porque as discussões propostas, inclusive em relação às mudanças climáticas, têm tudo a ver com a sociedade brasileira. “Não existe mais a história de que ‘a seca é coisa dos nordestinos’ porque a impossibilidade de viver no seu lugar de origem desafia a todos nós e aproxima o poema de Cabral de qualquer indivíduo.”

Com estreia prevista para o dia 28, no Sesc Ipiranga, em São Paulo, a peça “Estudo Nº 1 - Morte e Vida”, do grupo pernambucano Magiluth, oferece um olhar de conterrâneos para o universo de Cabral em contraste a tantas leituras realizadas por artistas de outros estados. “A nossa intenção é repensar esse imaginário da figura do nordestino que mudou bastante nos últimos tempos e foi muito alimentado no passado, inclusive pela elite do Nordeste, da qual Cabral fazia parte”, diz Giordano Castro, ator do Magiluth.

O espetáculo busca ainda uma ampliação geográfica da problemática, o que só universaliza o poema de Cabral. “Os Severinos continuam sendo os nordestinos, mas também são as pessoas do Sul da Ásia, do Norte da África, os sírios, os latino-americanos e todos que são obrigados a se deslocarem de suas cidades”, completa Castro, que, em março, leva “Estudo Nº 1 - Morte e Vida” para o Recife.

O fluxo migratório é o ponto de partida do diretor Kleber Montanheiro, da Cia. da Revista, que desenvolve a trilogia “Conexão São Paulo - Pernambuco”. O projeto é formado pelos espetáculos “Nossos Ossos”, adaptação do romance de Marcelino Freire, atualmente em cartaz; uma versão teatral do filme “Tatuagem”, do cineasta Hilton Lacerda, prevista para maio; e uma ficção batizada de “Dois Joãos”, que deve subir ao palco em setembro. Esta montagem, com dramaturgia de Marcelo Marcus Fonseca, pretende mostrar o contraste dos destinos de dois homens que tomaram o mesmo trem no Recife em busca de um sonho no começo dos anos de 1940. São eles o futuro escritor João Cabral de Melo Neto, que desembarcou no Rio de Janeiro para se dedicar à literatura, e João da Silva, uma releitura de Severino, que seguiu para São Paulo e terminou seus dias como morador de rua.

“As pessoas ainda hoje alimentam o desejo de morar em São Paulo e me impressiono como a imagem do Severino ficou perpetuada”, comenta Montanheiro, que, no fim do ano, passou por Recife, Olinda e cidades de Alagoas. “Sinto a necessidade de estabelecer esse cruzamento de olhares para o meu trabalho e, inclusive, tendo na minha equipe colegas do Rio Grande do Norte e de Sergipe, vejo que são muitos os Nordestes e não podemos limitar nossa visão.”

A chance de um novo olhar encantou a cantora e compositora paulista Helô Ribeiro ao produzir o álbum “A Paisagem Zero”, lançado no ano passado. A artista foi desafiada a musicar um poema de Cabral para um sarau, em 2017, e correu atrás de material - até porque sua familiaridade com o escritor se limitava à leitura de “Morte e vida severina”. Ela descobriu, então, a fase inicial do poeta, dos livros “Pedra do sono” (1942) e “O engenheiro” (1945), muito imagética, influenciada pelas artes visuais, bem diferente do enfoque nordestino e engajado que o caracterizaria adiante.

Em pouco mais de uma semana, ela musicou doze poemas, e dez deles formam o seu disco. “O surpreendente é que não escalei uma montanha, foi tudo orgânico, é o concreto aliado ao onírico”, descreve Ribeiro, citando as faixas “O Fim do Mundo”, “A Mulher Sentada” e “O Rio”. “São palavras que pareciam escritas hoje, falam de autoritarismo, questionam os sonhos, algo que se comunica com esse período em que estamos tão machucados.”

Profundo admirador de Cabral, o cantor e compositor pernambucano Lirinha questiona as declarações do escritor a respeito de sua antipatia pela música. “Penso que essa negação era uma forma de ele se proteger de um movimento de ver grandes poetas, como Vinicius de Moraes, enveredando pela canção popular, então Cabral já cortava qualquer possibilidade de uma interação”, justifica.

Como vocalista da banda Cordel do Fogo Encantado, Lirinha incluiu poemas de Cabral em seus shows, como “Os três mal-amados”, e ficou chocado com a receptividade do público, que repetia os versos em coro com ele. O artista, que ainda declamou poemas para o espetáculo “Cão Sem Plumas” (2017), criado pela coreógrafa Deborah Colker, confessa, porém, que jamais pensaria em musicar seus versos. “Seria um enorme atrevimento, não dá”, despista.
A parceria entre Lirinha e Cabral, no entanto, permanece em ebulição. Em dezembro de 2020, o artista, a atriz Letícia Sabatella e o pianista Paulo Braga protagonizaram uma live em homenagem ao poeta que tem grandes chances de gerar uma temporada presencial esse ano. Outro projeto é transformar a canção “Morte e Vida de Stanley”, gravada no terceiro disco do Cordel, em uma dramaturgia teatral. “Essa música nasceu do meu encontro com um rapaz, o Stanley, que trabalhava com o pai, Severino, na construção de um edifício, e penso que posso aprofundar as histórias dessas pessoas que chegam a São Paulo, formam famílias e a luta, se não continua a mesma, é muito parecida”, diz Lirinha.