Valor Econômico, v. 22. n. 5428, 29, 30, 31/01/2022, Brasil, A2 

O Brasil sobrevive à alta de juros pelo Fed? 

Alex Ribeiro

 

O presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, não excluiu nenhuma possibilidade no combate à inflação muito alta que assola os Estados Unidos. Pode subir os juros em 0,25 ponto percentual nas sete reuniões do seu comitê de política monetária previstas para este ano e até lançar mão de movimentos mais fortes, de 0,5 ponto percentual. O Brasil vai sobreviver ao solavanco?

Os primeiros dias após a reunião do Fed, que ocorreu na quarta-feira passada, foram relativamente positivos. A bolsa subiu na semana, embora tenha oscilado um bocado. E a cotação do dólar caiu, fechando a R$ 5,39. Em parte, isso se deve à realocação de investimentos, que deixaram ações nos Estados Unidos, sobretudo de tecnologia, e foram para os emergentes, inclusive Brasil.

Selic de dois dígitos protege, mas não deixa país imune

Mas esse movimento provavelmente não teria ocorrido se, por aqui, os juros não tivessem subido antes. Com todas as queixas de que o Banco Central brasileiro está atrás da curva e de que apertou de forma pouco convincente, sinalizando por um bom tempo um ciclo apenas parcial, o fato é que a meta da taxa Selic deve chegar nesta semana a dois dígitos, subindo dos atuais 9,25% ao ano para 10,75% ao ano. É possível que aumente mais nos próximos meses, para algo em torno de 12% ao ano.

Os juros não resolvem todos os problemas do Brasil, já que a inflação ainda segue muito alta, falta confiança na política fiscal e há muita incerteza política. Mas, sem a Selic nos níveis atuais, os investidores provavelmente estariam mais reticentes em trazer recursos ao Brasil. Há um grupo de países emergentes que está claramente atrás da curva, como Indonésia, Índia e África do Sul, que tendem a sofrer mais com o Fed.

O juro alto é uma espécie de vacina que amortece o impacto da alta de juros pelo Fed, mas não garante imunidade absoluta. Os economistas estão fazendo as suas apostas sobre qual vai ser o efeito líquido no Brasil. Tem uma corrente que acha que a alta de juros pelos Estados Unidos pode ter desdobramentos positivos, pois lida com um foco central de pressão inflacionária global.

O próprio Banco Central vem chamando a atenção para isso. Os gigantescos estímulos monetários e fiscais injetados nos Estados Unidos aumentaram fortemente a demanda por bens industriais e, por tabela, por insumos usados para produzi-los, incluindo energia. Se os Estados Unidos forem bem-sucedidos em conter essa pressão, o Brasil terá uma força que puxa a inflação para baixo.

Mas tudo vai depender, é claro, de quanto a própria alta de juros pelo Fed vai atingir o Brasil. Mesmo com os juros internos mais altos, é de se esperar que haja alguma pressão na taxa de câmbio. Esse seria um vetor que puxa a inflação para cima.

Qual das duas forças tende a prevalecer, ao final? Vai depender do quão ordenado for o processo de alta de juros nos Estados Unidos. E da capacidade do Fed de conseguir controlar a inflação.

Um documento publicado há alguns dias pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) alerta que a precificação do mercado para as altas de juros estava aquém do que havia sido indicado em dezembro pelos membros do Fed. Com uma geração mal acostumada com a política acomodatícia, os mercados acreditam que o BC americano vai largar a toalha no primeiro sinal de fraqueza da atividade econômica ou dos preços do ativos. Quando o mercado acordar para o fato de que Powell fala sério, poderá haver alguns solavancos.

Há muita incerteza sobre o tamanho do aperto. O chairman do Fed não deu um roteiro claro para a alta de juros. “Não é possível prever com muita confiança exatamente qual trajetória de juros será mais apropriada”, disse, em entrevista coletiva. O Bank of America passou a prever altas de juros em todas sete reuniões que restam neste ano, o que elevaria a taxa, hoje próxima a zero, para o intervalo entre 1,75% e 2% ao ano. Experientes economistas dizem que, num ritmo de 0,25 ponto percentual por reunião, o Brasil aguenta bem, se não houver nada muito negativo nas eleições. Mas será que esse ritmo de aperto e orçamento seriam suficientes?

Os analistas econômicos estão fazendo as contas do que seria necessário, em termos de juro, para baixar a inflação americana, que chegou a 7%. A Nomura, por exemplo, fala que pode ter alta de 0,5 ponto percentual. Um juro nominal de 1,75% ao ano ainda está abaixo da taxa neutra, que em dezembro os próprios membros do Fed estimaram em 2,5% ao ano. Qualquer coisa abaixo de 2,5% ao ano, portanto, mantém a política monetária acomodatícia. Além disso, o que vale é a taxa real. As projeções de mercado para inflação neste ano estão por volta de 3%.

Outra dúvida é se os Estados Unidos vão conseguir controlar a inflação tão rápido. Os juros não são a única força que poderá ajudar a trazer os índices de preços para baixo. Powell citou a retirada dos estímulos fiscais e uma melhora no lado da oferta na economia, embora acredite que a retomada das cadeias produtivas possa se prolongar em 2023. Mas há também forças que podem fazer a inflação ficar mais persistente.

O FMI citou, no seu Panorama Econômico Mundial, o risco de uma eventual desancoragem das expectativas de inflação de longo prazo. Esse era um problema que, nos últimos anos, parecia restrito a economias emergentes, como o Brasil. Os Estados Unidos conviveram por anos com expectativas de inflação muito baixas. Agora, com o mercado de trabalho muito apertado, e com desconfianças de que a taxa natural de desemprego subiu pelo menos temporariamente, assiste a pressões por maiores reajustes salariais. Tudo isso complica o trabalho desinflacionário.

Para o Banco Central brasileiro, não há muito o que fazer, a não ser desejar boa sorte para o Fed e cuidar da nossa própria inflação. Desde que o Brasil abandonou o regime de câmbio fixo, a taxa de juros passou a ser manejada com vistas ao equilíbrio interno da economia. O trabalho bem feito dá frutos. Entre 2005 e 2007, o Brasil baixou os juros, mesmo em meio de um ciclo de aperto nos Estados Unidos.