Valor Econômico, v. 22. n. 5428, 29, 30, 31/01/2022, Agronegócios, B10
União de forças na compra de insumos
Camila Souza Ramos
Um grupo de usinas sucroalcooleiras se uniu para realizar compras conjuntas de insumos para a atividade, e hoje já realiza mais compras de algumas categorias de produtos do que gigantes do agronegócio como Raízen e Amaggi.
O pool de compras, organizado pela trading de etanol SCA, começou a operar na safra 2017/18 com empresas que processavam 40 milhões de toneladas de cana. Agora, reúne 16 companhias do ramo, responsáveis por 70 milhões de toneladas, ou 12% da moagem no país.
Segundo Alexandre Menezio, fundador e head de Estratégia e Novos Negócios da Aliança SCA, como é chamado o pool, o crescimento da iniciativa nos últimos anos reflete o benefício financeiro que as associadas vêm obtendo.
Com o ganho de escala nas compras e negociações muitas vezes feitas diretamente com os fabricantes, as usinas conseguem negociar preços melhores - um diferencial e tanto no momento atual de disparada dos custos de insumos agrícolas.
A estratégia das usinas ganha corpo em contraposição à reorganização da cadeia de insumos agropecuários. Poucos anos atrás, gigantes do mercado de agroquímicos passaram por um forte movimento global de concentração, e agora é a vez de as empresas de distribuição de insumos seguirem o mesmo caminho.
A aliança é inspirada em outras iniciativas já existentes no setor, como a das empresas Tereos, Cofco e do antigo negócio sucroalcooleiro da Bunge (hoje integrada à joint venture BP Bunge Bioenergia).
Para evitar questionamentos de atuação anticompetitiva, o grupo buscou em 2016 um parecer do escritório Tauil & Chequer Advogados, que recomendou algumas “boas práticas” com base nas regras do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), como manter o sigilo das informações dos participantes, aplicação de programa de compliance e impedimento de participação de diretores do pool em cargos nas usinas.
Fazem parte hoje da Aliança SCA algumas empresas de capital aberto - Jalles Machado e Adecoagro, cujas ações são listadas na bolsa de Nova York - e outras de médio porte, como Tietê Agroindustrial e a UISA, além do produtora de grãos Grupo Roncador e da divisão de citros da Louis Dreyfus Company (LDC).
Em área, as participantes detêm hoje 700 mil hectares. O grupo quer continuar crescendo nos próximos anos, e tem como meta avançar 50% em quantidade de cana representada. Na próxima safra, o grupo não contará mais com a Biosev, que foi comprada pela Raízen, mas há novidades como Clealco e Viterra.
Na safra atual (2021/22), o pool estima que o custo médio dos produtos comprados ficou 6% abaixo do valor que teriam que pagar caso cada usina operasse sozinha no mercado. A economia para cada empresa, porém, pode variar conforme seu nível de eficiência - em alguns casos, é possível que a economia tenha alcançado 14%, e para outras já mais eficientes, 1%, afirma Menezio.
“O ganho nesta safra foi maior que em safras anteriores. Em geral, é de 4% a 5%. Este ano [a economia] foi maior porque os preços de fertilizantes e agroquímicos aumentaram muito e a taxa de câmbio também influenciou”, diz Menezio. O valor movimentado de compras cresceu 25% ante a safra anterior e alcançou pouco mais de R$ 1,3 bilhão neste ciclo - o que significou uma economia agregada de custos de R$ 90 milhões.
Cerca de 80% dos gastos da Aliança SCA estão concentrados em agroquímicos, diesel e fertilizantes. Com agroquímicos, foram R$ 552 milhões nesta safra, mais do que o dispendido por Raízen e Amaggi, nas estimativas do pool.
“Na nossa atividade, não controlamos preços. Quem ‘faz’ o preço é o mercado. Então temos que controlar o custo”, diz Otávio Lage de Siqueira Filho, CEO da Jalles Machado.
Além da economia de custos, o pool também tem oferecido às usinas garantia de entrega de alguns insumos em um momento de incertas com as cadeias de fornecimento. Mudanças recentes na regulação ambiental na China suspenderam a produção de agroquímicos de alguns fornecedores do país - um dos principais fornecedores do produto aos agricultores brasileiros -, o que chegou a afetar algumas entregas.
“Mas nossos clientes tiveram poucos problemas, porque os fornecedores acabam destinando mais atenção aos grandes compradores”, diz Menezio. Para evitar que o risco se repita, o grupo está em busca de alternativas de fornecimento no mundo.
A aliança também antecipou compra de fertilizantes, por exemplo, evitando os gargalos nas entregas dos produtos no fim do ano passado. Na Jalles Machado, os estoques de insumos estão bem mais cheios do que o de costume, para garantir que não haja problemas no decorrer da safra. “Nós já antecipávamos contratos, mas não o recebimento dos produtos. para diminuir o risco, aumentamos o estoque”, explica Roberta Beze, gerente de suprimentos da empresa goiana.
Na safra que terá inicio em abril (2022/23), a Aliança SCA quer comercializar outros insumos, como fertilizantes foliares, e também alcançar fornecedores de tecnologia. Para facilitar a expansão das operações, o grupo pretende lançar um market place, o que pode facilitar inclusive a atração de mais usina para o grupo, segundo Menezio.