Valor Econômico, v. 22. n. 5428, 29, 30, 31/01/2022, Especial, F2
Previdência aberta deve ver aumento na portabilidade
Luciana Del Caro
O sistema de seguros aberto deverá aumentar a portabilidade de recursos entre planos VGBL e PGBL de diferentes seguradoras, acreditam participantes do mercado. Com o compartilhamento de dados, será mais fácil para os investidores compararem as características dos produtos - e, na fase final de implantação do sistema, migrar recursos de uma seguradora para outra.
A área de previdência aberta pode ser uma das mais afetadas pelo open insurance, considera Rachel Ferreira Bonel, superintendente-executiva de dados, privacidade e planejamento comercial da Icatu. Apesar de a portabilidade já ser uma realidade no setor, ela acredita que a facilidade de comparação entre os planos PGBL e VGBL é maior do que em outros ramos do seguro, que costumam ter serviços agregados (como os de assistência).
“Se um dos efeitos do open insurance não for o aumento da portabilidade, ele não terá alcançado seus objetivos”, afirma José Paulo Vasconcellos, diretor da MAG Seguros. E, como outro benefício esperado pelo sistema é a redução de custos, esta também pode impulsionar as transferências: “Nos últimos anos, a portabilidade foi motivada pela entrada dos gestores independentes na previdência e pela flexibilização dos riscos, permitida pela regulamentação. Agora, o vetor deve ser a redução de custos”, acredita Guilherme Assis, CEO do consolidador de investimentos Gorila.
A portabilidade entre seguradoras vem crescendo ano a ano. Em 2021, até outubro, foram portados R$ 36,7 bilhões (193 mil portabilidades cedidas), de acordo a Superintendência de Seguros Privados (Susep). “O mercado de previdência privada aberta tem mais de R$ 1 trilhão de reservas acumuladas, mas o volume de portabilidade ao ano não passa de 3% desse montante. Isso indica que 97% do mercado não sabe se o produto que comprou há alguns anos ainda faz sentido para suas necessidades atuais”, afirma Victor Bernardes, diretor de vida e previdência da SulAmérica. Ele lembra que a portabilidade será facilitada porque, no mesmo site, o investidor poderá comparar os produtos e pedir a transferência dos recursos para outra seguradora.
João Batista, diretor de produtos da Santander Seguros e Previdência, considera que a previdência aberta já convive com a portabilidade, e que ela não deve ser “disruptiva”, mas e sim uma extensão do que já ocorre hoje, com possível incremento porque os produtos são de fácil comparação.
Dentre os campos que vão constar das APIs (protocolos que farão a interface com o sistema), estão as cotas e os CNPJs dos PGBLs e VGBLs. A rentabilidade dos produtos não constará, mas, como as cotas já são públicas, o mercado deve se encarregar de prover essa informação para os investidores. O Gorila, por exemplo, está se preparando para integrar dados da previdência para “entregar insights” para seus usuários, segundo Assis. Uma possibilidade seria avisar os investidores quando os custos de seus produtos estiverem muito elevados em relação ao mercado.
Embora a facilidade para comparar os VGBLs e PGBLs e portar recursos seja tida como positiva, no mercado há preocupação com os impactos do open insurance na adequação dos investimentos ao perfil e momento de vida do cliente (processo de suitability). “O consumidor vai ter que ficar muito atento às abordagens que irá receber, ao tipo de comparação que vai fazer com os dados, para não tomar decisões que o prejudiquem no longo prazo”, considera Bonel, da Icatu.
Com o aumento da competição, os investidores devem passar a receber mais ofertas, e o temor é que a rentabilidade seja enfocada e que o cliente não seja informado dos riscos das aplicações. Não seria adequado a um investidor próximo do prazo previsto para aposentadoria, por exemplo, buscar elevados rendimentos - já que esses implicam mais riscos, e pode não haver tempo para se recuperar de perdas relevantes. Outro receio é que o investidor leve em conta apenas o custo dos produtos, sem avaliar a qualidade da gestão - o que também pode comprometer a formação de sua poupança de longo prazo.
Batista, do Santander, espera que a indústria debata o assunto, fortalecendo a responsabilidade dos distribuidores e o suitability, para que fique assegurado que o cliente recebeu todas as informações que precisava para decidir onde aplicar.
André Lanzana, sócio do Banco Modal responsável pela área de seguros, diz que esse risco da inadequação do suitability já existe atualmente. Para ele, o open insurance trará mais poder aos clientes, beneficiando-os. Ele considera que sairão ganhando as instituições que propiciarem melhor experiência (digital e de consultoria pessoal) ao cliente - e que esta boa experiência implica em um processo de suitability adequado.