Valor Econômico, v. 22. n. 5428, 29, 30, 31/01/2022, Especial, F4

Tecnologia aponta necessidades e customiza ofertas

Jacilio Saraiva

 

Insurtechs ou startups do ramo de seguros estimam um crescimento de até 50% nos negócios, com a chegada do open insurance. A versão do open banking para o mercado segurador vai permitir que clientes compartilhem dados com mais seguradoras ou terceiros, ampliando o acesso a produtos e serviços.

Na Planetun, que atua nos ramos automotivo (responsável por 87% dos contratos); residencial (7%) e vida-previdência (5%), além de náutico e transporte, estão em andamento investimentos em recursos de inteligência artificial (IA) para aproveitar a primeira onda do novo padrão.

Desde o início do ano, a empresa implementou IA em processos de aceitação digital, sem a necessidade de intervenção humana, para validar vistorias prévias em automóveis. O aplicativo da insurtech permite que o cliente da seguradora parceira envie, pelo celular, documentos e fotos para a inspeção de carros, com uma redução de 65% do tempo tradicionalmente gasto nesse tipo de demanda.

Com a pandemia, as seguradoras precisam oferecer uma jornada de assistência e sinistro de forma digital e segura, explica Henrique Mazieiro, CEO do Grupo Planetun. “A nossa tecnologia usa fotos, vídeos e áudios, o que ajuda a ‘virar a chave’ [dos hábitos dos clientes].”

A companhia estima que os negócios devem aumentar até 50% no ano, em relação a 2021, com o open insurance. Em termos de faturamento, foram R$ 11,5 milhões em 2021 e a expectativa é fechar 2022 com R$ 17,2 milhões.

A carteira de seguradoras clientes passou de nove, em janeiro de 2021, para 19 este ano. Mapfre e Porto Seguro estão na lista.

Christian Wellisch, sócio-fundador da Globus Seguros, que nasceu em 2016 a partir de um spin-off da XP Investimentos, acredita que a empresa possa dobrar de tamanho a partir da nova fase do mercado segurador.

A companhia faturou R$ 12 milhões em 2021, com mais de R$ 140 milhões de prêmios, e a projeção é atingir R$ 24 milhões de faturamento em 2022, com R$ 250 milhões de prêmios.

Parte desse avanço deve ser impulsionada com a expansão da rede de distribuição de produtos, que deve saltar dos atuais 220 parceiros para 350, até o final do ano. Noventa por cento do conjunto são escritórios de agentes autônomos de investimentos (AAIs), diz Wellisch, ex-sócio e executivo da XP. A startup atua com mais de 30 seguradoras, como Ezze e Swiss Re.

Wellisch diz que deve investir mais de R$ 2 milhões em 2022, por conta do open insurance, em projetos de tecnologia e desenvolvimento de produtos. Uma das ações é um mapeamento de riscos de clientes pessoas físicas. Com a ajuda de um questionário, baseado em um algoritmo que a empresa criou, a ideia é identificar a necessidade de proteção do público, com uma melhor seleção de ofertas.

“Dividimos as respostas em ‘vai precisar’, ‘deve precisar’ e ‘pode precisar do seguro’, explica. A novidade acumula mais de 15 mil réplicas de consumidores e trouxe reflexos nas vendas. A oferta de itens para pessoas físicas aumentou em quase 30%, depois do uso da ferramenta.

O open insurance também deve acelerar a entrada de novas apólices que a Globus não oferecia antes, segundo o executivo. A empresa está lançando cobertura para hotéis e pousadas e estuda entrar no segmento de obras de arte. Mais investimentos estão no radar, amparados por uma injeção de capital realizada no semestre passado.

Por meio da plataforma beegin, de crowdfunding, a Globus concluiu uma rodada de captação de R$ 3,8 milhões por 10% da empresa. A iniciativa contou com 117 investidores. “Fugimos do modelo tradicional de investimentos nesse mercado, baseado na compra de carteiras ou fusão de corretoras.”

Na visão de Gibran Silva, gerente de arquitetura de soluções e dados da mineira Pottencial, a expectativa de arranque dos negócios em 2022 não está diretamente relacionada ao open insurance, ainda em estágio de lançamento.

O sistema de seguros aberto faz parte da estratégia de crescimento, mas os investimentos já aconteceriam independentemente dele, considerado mais um meio para alcançarmos objetivos, explica.

Nessa linha, uma das frentes de trabalho é o “portal do desenvolvedor”, lançado em outubro de 2021. No site, corretoras parceiras podem realizar cotações e emissão de apólices em minutos, garante.

A Pottencial é líder nacional do seguro garantia (17,9% de marketshare) desde 2017, de acordo com a Superintendência de Seguros Privados (Susep), que regula o mercado. Tem 1,8 mil corretores parceiros e 80 mil clientes. “A expectativa em 2022 é de um volume de prêmios superior a R$ 1 bilhão, ante R$ 800 milhões, em 2021”, diz Silva.