Valor Econômico, v. 22. n. 5429, 01/02/2022, Política, A6
Lula busca atrair apoio de ex-adversários
Marcelo Ribeiro, Renan Truffi e Vandson Lima
Em meio às negociações para que o ex-governador Geraldo Alckmin integre a chapa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como vice na corrida presidencial, lideranças do PT afirmaram ontem que o ex-presidente está trabalhando para atrair ex-adversários políticos para uma frente que o ajude na reconstrução do país.
Em documento de convocação do seminário do partido, correligionários do ex-mandatário o apontam como único pré-candidato ao Palácio do Planalto capaz de encabeçar um processo de retomada do país. Durante o evento da legenda, Lula indicou que quer ser candidato de uma frente mais ampla. Ele confirmou que pretende definir sua eventual participação na corrida presidencial em março.
“Embora eu seja do PT, eu não sou um candidato só do PT. Eu tenho que ser um candidato de um movimento que ultrapasse as fronteiras do PT, da CUT, da Força Sindical”, disse Lula ao participar do seminário “Resistência, Travessia e Esperança” por videoconferência.
No documento de convocação, a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, o presidente da Fundação Perseu Abramo, Aloizio Mercadante, o presidente do Instituto Lula, Marcio Pochmann, e os líderes do partido na Câmara, Reginaldo Lopes (MG), e no Senado, Paulo Rocha (PA), defenderam que o momento atual exige “pactos sobre valores necessários” para unir o Brasil. “Cresce a consciência nacional de que só Lula pode liderar um processo de reconstrução do país. E, consciente do seu papel, ele já cumpre a missão, edificando pontes com aqueles que já estiveram do outro lado, mas, por nutrir valores democráticos, podem e devem estar juntos neste processo de retomada democrática do país”.
Segundo apurou o Valor, o ex-presidente tem demonstrado confiança de que a dobradinha com Alckmin possa contribuir para que o PT rompa barreiras em regiões dominadas por siglas de centro e centro-direita, como Centro-Oeste e Sul. Interlocutores do ex-tucano destacam o entusiasmo dele em concorrer na chapa encabeçada por Lula.
Além das negociações avançadas com Alckmin, o petista também vem mantendo conversas com o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, com o objetivo de convencer o ex-ministro a apoiá-lo na disputa nacional. A aliança, porém, só tem chances de prosperar caso o presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), oficialize a desistência de concorrer ao Planalto. O ex-presidente também já se reuniu com lideranças históricas do PSDB, como o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) e o ex-ministro Aloysio Nunes.
Ontem, Lula reuniu-se com o senador Renan Calheiros (MDB-AL) e com o governador de Alagoas, Renan Filho (MDB), para discutir o cenário eleitoral de 2022. Na conversa, Renan - tradicional aliado de Lula - deixou claro que irá trabalhar junto à direção nacional do MDB para que o partido apoie o petista nas eleições presidenciais. A articulação de Renan contraria o entendimento da cúpula emedebista, que tem apostado na senadora Simone Tebet (MDB-MS) como pré-candidata do partido. “Tive uma conversa com presidente Lula sobre democracia, institucionalidade, economia e eleição. A última arruinou o Brasil. Pessoalmente defendo que se o MDB não tiver um candidato competitivo é mais consequente uma aliança com Lula”.
Expoentes do PT, os ex-dirigentes Rui Falcão e José Genoíno não escondem a insatisfação com a aproximação entre Lula e Alckmin. Ainda assim, parlamentares da legenda dizem que o próprio Lula vem acenando que precisa de um projeto amplo para garantir a vitória nas urnas.
“O Lula é o maestro. É claro que ele precisa do time. Ele tem que liderar uma ampla coalizão política nacional, centrada num programa, da reconstrução e transformação do Brasil”, disse o deputado José Guimarães (PT-CE), irmão de Genoino. “A ideia de buscar um vice que tenha esse papel de ampliar está colocado no PT e é consenso. O que se discute é nome. Claro que quando surge um nome A, B ou C, alguns reagem”, endossou Paulo Rocha.