Valor Econômico, v. 22. n. 5429, 01/02/2022, Opinião, A10

Juro em alta deve minguar oferta de crédito neste ano

 

Os bons tempos do crédito farto e barato muito provavelmente ficaram para trás. Depois de ter saltado 34% nos dois anos de pandemia, injetando R$ 1,2 trilhão na economia, ajudando a amenizar o mergulho de 2020 e sustentando a recuperação de 2021, as operações de crédito devem desacelerar neste ano, como reflexo das políticas de restrição monetária para enfrentar a inflação, com a alta dos juros, postura mais cautelosa dos bancos nas concessões e crescimento menor da economia. Ciente disso, o ministro da Economia, Paulo Guedes, já acena em retomar linhas que fizeram sucesso no primeiro ano da pandemia.

O Banco Central (BC) divulgou o balanço do crédito em 2021 na semana passada, com aumento de 16,5% do saldo no ano, para R$ 4,7 trilhões, o equivalente a 54% do Produto Interno Bruto (PIB). O saldo superou os R$ 3,5 trilhões no fim de 2019, e cresceu mais do que os 15,6% do primeiro ano da pandemia. As operações com as pessoas físicas puxaram o resultado, com crescimento de 20,8%, ritmo mais acentuado do que os 11,1% dos empréstimos para empresas. Em 2020, foi o inverso. Para socorrer a economia, o governo lançou linhas especiais para incentivar os negócios, que contribuíram para o aumento de 21,8% do crédito para pessoas jurídicas, enquanto as operações com as famílias cresceram 11,2%.

Para este ano, porém, os próprios bancos preveem crescimento menor do crédito e a volta ao padrão de antes da pandemia. Em novembro, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) projetava aumento de 7,3% neste ano, mas reduziu a estimativa para 6,7%, agora, em função da diminuição das expectativas para o PIB e da base de comparação. O BC é mais otimista. Ainda assim espera que os empréstimos registrem expansão de 9,4% neste ano, com as operações para as famílias seguindo na liderança, mas crescendo quase a metade (11,7%), e as dirigidas às empresas também menores (6,3%).

O exame dos números mais recentes já mostra a tendência à desaceleração. Em dezembro, as concessões somaram R$ 497 bilhões, retração dessazonalizada de 12,1%, com quedas nas operações com pessoas jurídicas (6,6%) e físicas (9,3%). No acumulado do ano, as concessões de crédito cresceram 19% em 2021, ante 5,3% em 2020.

A alta dos juros é dos principais motivos para a freada do crédito. O salto da taxa básica de juros em 2021, com a Selic passando de 2% ao ano em fevereiro para 9,25% em dezembro em parte já repercutiu no crédito. Se a Selic quadruplicou, a taxa média do crédito subiu um terço, passando de 18,4% para 24,4% ao ano, para uma inflação pouco superior a 10%. O crédito com recursos livres, lastreado em recursos livremente captados pelos bancos, sem direcionamentos, que representa 57% do estoque, subiu mais, e sua taxa média passou de 25,5% para 33,9% ao longo de 2021.

As linhas para as pessoas físicas são as mais salgadas. O campeão é o rotativo do cartão, que chegou a 349,6% ao ano. Segundo as regras do Banco Central, os bancos são obrigados a conceder linhas mais baratas para o cliente que ficar mais de mês no rotativo. O crédito parcelado geralmente oferecido não sai muito mais em conta: estava em 168,5% no fim do ano.

Apesar disso, a inadimplência segue em níveis relativamente baixos. Ao fim do ano estava em 2,3%, sendo de 3% para a pessoa física e de 1,3% no caso das empresas. No fim de 2020, a taxa média de inadimplência era de 2,15%. Esses números estão, no entanto, amenizados pelas renegociações de dívidas lideradas pelos bancos. Segundo informações da Febraban, desde o início da crise sanitária, os bancos renegociaram 18,7 milhões de contratos, totalizando R$ 1,1 trilhão em saldo devedor.

Outro fator preocupante é o endividamento crescente das famílias. Levantamento do fim do ano da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) constatou que 70,9% das famílias se declararam endividadas em comparação com 66,5% em 2020. Empregando outra metodologia, o Banco Central também vem registrando o aumento do endividamento, que foi de 50,4% para 51,2% das famílias, de setembro para outubro.

A combinação do aumento das taxas de juros dos empréstimos, que continuarão subindo na esteira da elevação da Selic, em ambiente de PIB desacelerando, mercado de trabalho frágil e renda baixa, com inflação ainda elevada, são os elementos que reforçam a perspectiva de menor oferta de crédito neste ano.