Valor Econômico, v. 22. n. 5429, 01/02/2022, Finanças, C2
Dólar desce para R$ 5,30, menor nível em 4 meses
Gabriel Roca, Marcelo Osakabe e Victor Rezende
A elevada demanda dos investidores globais por ativos de países emergentes beneficiou novamente os mercados de câmbio, juros e bolsa no Brasil, que tiveram um pregão favorável. Enquanto o dólar terminou o dia no seu menor patamar em quatro meses, o Ibovespa anotou em janeiro o seu melhor desempenho mensal desde dezembro de 2020.
O Ibovespa subiu 0,21%, aos 112.143,51 pontos e acumulou valorização de 6,98% em janeiro. A performance da renda variável local no mês passado contrariou a tendência observada em Nova York. Apesar dos ganhos de ontem, em janeiro, o Dow Jones caiu 3,32%, o S&P 500 recuou 5,26% e o Nasdaq amargou perdas de 8,98%.
Tem sido observada uma demanda elevada de investidores estrangeiros por ações locais. Apenas na última quinta-feira, R$ 3,29 bilhões em recursos externos entraram no segmento à vista do mercado secundário da B3. O montante já chega a R$ 28,14 bilhões em janeiro, maior aporte observado desde novembro de 2020.
Analistas atribuem o movimento à saída global de recursos dos Estados Unidos, motivada pela postura mais dura do Federal Reserve (Fed) no combate à inflação. A dinâmica ocorre especialmente em ações de tecnologia, que contêm múltiplos mais caros e elevadas premissas de crescimento embutidas em seus preços e são, portanto, mais sensíveis a um ciclo de aperto monetário mais agressivo.
Segundo Jon Harrison, estrategista macro de mercados emergentes da TS Lombard, a entrada líquida em ETFs (fundos de índices) de ações de emergentes contrasta com as compras limitadas nos cinco meses anteriores a dezembro. “Nossa análise dos ETFs de ações emergentes sugere que a China tem sido beneficiária desse interesse renovado dos investidores, assim como a Índia e o Brasil, enquanto Coreia do Sul, Rússia e Indonésia sofreram saídas”, afirma.
O fluxo positivo também é observado nos demais ativos brasileiros. Ontem, o dólar comercial caiu 1,57%, a R$ 5,3054, em seu menor encerramento desde os R$ 5,3036 registrados em 22 de setembro. Perto do horário de fechamento dos mercados locais, o dólar caía 1,40% contra o rand sul-africano e 1% na ante o peso mexicano.
“Hoje [ontem] o pregão foi muito em função da disputa pela Ptax, e talvez amanhã [hoje] a gente veja até algum ajuste. Mas também foi a força do conjunto: o exterior positivo, com o Nasdaq subindo mais de 2%, e também entendo que os investidores já estão olhando para a alta de 150 pontos-base na Selic que o Copom deve conceder na quarta-feira”, diz Fernando Bergallo, diretor da FB Capital.
No mercado de renda fixa, os juros futuros acompanharam a dinâmica do dólar e encerraram o pregão em queda consistente. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2025 cedeu de 11,35% para 11,25% e a do DI para janeiro de 2027 passou de 11,33% para 11,225%.
“A queda é quase que integralmente explicada pelo fluxo estrangeiro. O investidor estrangeiro está alocando em países com alta exposição a commodities”, nota o profissional de renda fixa de uma gestora de recursos, que prefere não ser identificado.
“Vemos notícias de que há um fluxo global para emergentes. A parcela intermediária e a ponta longa da curva estão cedendo com isso”, diz Patricia Pereira, estrategista-chefe da MAG Investimentos.
Ao mesmo tempo em que a boa performance do câmbio ajuda a tirar pressão das taxas, a estrategista nota que a ponta curta da curva permanece praticamente parada, na medida em que o mercado se ajusta às expectativas de inflação mais negativas e a um possível discurso mais “hawkish” (duro) do Copom na quarta-feira.