Valor Econômico, v. 22. n. 5430, 02/02/2022, Opinião, A12
A fome continua a aumentar
José Graziano da Silva e Mauro Del Grossi
Dados de uma recente pesquisa do Datafolha, divulgada em 24 de dezembro de 2021, destacaram que 26% dos brasileiros afirmaram que a quantidade de comida em casa não foi suficiente para alimentar suas famílias nos últimos meses, além de mostrar uma percepção generalizada do aumento da fome no Brasil, independentemente do perfil econômico e social do entrevistado ou da região em que ele mora.
De fato, essa percepção já havia sido confirmada pela pesquisa da Rede PenSSAN de dezembro de 2020, utilizando a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia): 43,4 milhões de pessoas não comiam a quantidade suficiente de alimentos para atender suas necessidades - e o pior, a insegurança alimentar grave havia aumentado de 10 milhões em 2018 para 19 milhões de pessoas em 2020. É preciso relembrar que no período da pesquisa estava ainda sendo pago o Auxílio Emergencial do Governo Federal, que começou em R$ 600 em abril e depois baixou para a metade, R$ 300 de outubro a dezembro de 2020.
Quem acaba com a fome não é o governo, mas a sociedade civil organizada com apoio do setor privado e público
Mesmo com este apoio, a fome aumentou e mais da metade (55%) da população brasileira estava em situação de insegurança alimentar, pior índice desde que a metodologia foi adotada pelo IBGE em 2004, revelando claramente que as ações governamentais foram insuficientes.
Vale recordar que “a segurança alimentar existe quando a família/domicílio tem acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais”. O oposto é a insegurança alimentar grave, geralmente tida como “proxy” da fome. Na verdade, é a soma das situações de insegurança alimentar moderada e grave que indicam as pessoas que estão privadas do mínimo necessário de alimentos para suas necessidades, critério adotado pela FAO, organismo da ONU que trata da alimentação.
Em 2018, antes da pandemia, a última informação oficial divulgada pelo IBGE mostrava que o Brasil já havia voltado ao Mapa da Fome, já que 16% da população sofria de insegurança alimentar moderada ou grave, e destes, 6% com insegurança alimentar grave, superando o limiar estabelecido pela FAO de 5%.
Outras pesquisas foram realizadas durante a pandemia, utilizando perguntas isoladas sobre segurança alimentar, mas que não são comparáveis diretamente com os resultados da Ebia. O Datafolha, em dezembro de 2021, por exemplo, apurou que 26% das pessoas comiam menos do que achavam que deviam. Em 2018, antes da pandemia, o IBGE apontava que eram apenas 12%, menos da metade!
O Datafolha mostrou também que 15% dos entrevistados deixaram de comer ou pelo menos de fazer alguma refeição porque não havia o suficiente para todos e nem dinheiro para comprar mais. Em 2018, o IBGE registrava que apenas 6% da populacao estavam nessa condição.
Esses números já tinham sido revelados pelas três rodadas das pesquisas da Unicef. Em julho de 2020, o órgão apontava que 6% dos entrevistados haviam deixado de comer. Em novembro de 2020, o número subiu para 13% e, em maio de 2021, para 17%, valor que não difere estatisticamente do Datafolha, se considerarmos as margens de erro das pesquisas.
Ou seja, passamos por uma trajetória crescente de insegurança alimentar já no primeiro ano da pandemia, aumento que continuou no segundo ano, sem arrefecimento. E isso tudo mesmo com a retomada do pagamento do Auxílio Emergencial do governo federal em abril de 2021, que infelizmente beneficiou um número bem menor de pessoas (cerca de 39 milhões) com um valor também muito menor - R$ 150 a R$ 375, dependendo da composição da família. Novamente, uma confirmação de que apenas o pagamento do auxílio não foi suficiente para conter o aumento da fome.
O que se pode esperar para 2022 com o início do pagamento do Auxílio Brasil, que após idas e vindas, começou a ser pago a apenas 17,6 milhões de pessoas em um valor de R$ 409? Vale notar, primeiro, que o número de beneficiários em 2022 está muito distante dos mais de 65 milhões contemplados pelo primeiro Auxílio Emergencial no valor de R$ 600. Segundo que o valor nominal pago hoje é cerca de 2/3 do que foi pago há mais de um ano, sem considerar a queda do poder aquisitivo provocado por uma inflação dos alimentos que superou a casa dos dois dígitos no período. Ou seja, não podemos esperar que o Auxílio Brasil resolva o problema da fome em 2022, nem mesmo daqueles que vierem a ser por ele beneficiados. Tudo indica que se não houver uma retomada imediata do crescimento econômico, com a geração de mais e melhores empregos que os atuais, a fome continuará devastadora nesse ano eleitoral.
As consequências dessa avalanche de fome no país são cada vez mais visíveis nas filas para conseguir um osso ou nos aglomerados de pessoas remexendo o lixo à procura de algo para comer. Mas existe um agravante: a situação das crianças e adolescentes, sobre os quais os “efeitos invisíveis” da fome somente se farão sentir daqui a alguns anos. Especialistas indicam que as crianças mal alimentadas não terão um crescimento compatível com o desenvolvimento intelectual, psicológico e motor que necessitarão para enfrentar o futuro. Com a atual exposição das crianças à insegurança alimentar, regredimos aos tempos de Josué de Castro, que acabou de completar 75 anos de ausência entre nós.
Já virou chavão repetir o que dizia o Betinho nos anos 90: “Quem tem fome tem pressa!”. Por tudo isso, não podemos esperar pelo novo governo eleito que começará a trabalhar em 2023. Os prefeitos que recém foram eleitos podem e devem fazer muito para garantir a segurança alimentar dos seus habitantes nesse ano corrente. Não vamos enumerar aqui todas as ações possíveis a nível municipal, mas uma delas merece destaque: a retomada da alimentação escolar com compras da agricultura familiar, para garantir que as nossas crianças tenham acesso a alimentos frescos e saudáveis. Mesmo com verba para isso, infelizmente, alguns aproveitaram a desculpa da pandemia para interromper esse círculo virtuoso de compras de produtos vindos de agricultores familiares.
A maior esperança está na reação da nossa sociedade em 2022. As campanhas de arrecadação e distribuição de ajuda material e financeira devem ser retomadas, apesar da fadiga já demonstrada de muitos. Afinal, quem acaba com a fome não é o governo de plantão, mas a sociedade civil organizada com apoio do setor privado e do setor público. Aqui, mais uma vez os prefeitos podem muito, fortalecendo os Conselhos Municipais de Segurança Alimentar e Nutricional (Conseas), para que possam coordenar um amplo acordo municipal contra a fome e a miséria, já que o ano eleitoral é um momento privilegiado para se construir um grande pacto social contra a fome.