Valor Econômico, v. 22. n. 5431, 03/02/2022, Política, A8

Pacheco manda recado a Bolsonaro; e Lira, a Pacheco

Raphael Di Cunto, Renan Truffi, Vandson Lima e Marcelo Ribeiro

 

Os presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), fizeram discursos cheios de recados na abertura do ano legislativo ontem. Ao lado do presidente Jair Bolsonaro (PL), Pacheco, que é pré-candidato ao Palácio do Planalto, criticou a divulgação de notícias falsas (“fake news”) e as “investidas autoritárias” contra a democracia. Já Lira cutucou os senadores por travarem pautas aprovadas na Câmara, defendeu a austeridade fiscal para ajudar o Banco Central a controlar a inflação e disse que “truques ilusionistas” para controlar artificialmente os preços e o desemprego acarretarão em “depressão econômica, carestia e sofrimento”.

Lira e Pacheco vêm enfrentando rusgas na relação há meses. Eles se reuniram anteontem para discutir as pautas do Congresso, mas o encontro foi rápido e outra reunião deve ocorrer na próxima semana. Ontem, o presidente da Câmara lembrou que os deputados aprovaram a reforma do Imposto de Renda em setembro e a mudança na regra de cômputo do ICMS sobre os combustíveis em outubro, mas as duas propostas estão paradas no Senado.

“Sabemos que existe quem defenda solução diversa [do projeto do ICMS]. Não há problema, podemos discutir e evoluir para a construção de uma solução conjunta. O que não se pode fazer, em nossa visão, é protelar indefinidamente o assunto e ignorar os efeitos de seus impactos perversos sobre a economia nacional e a sociedade brasileira”, criticou.

Lira também exaltou o projeto de lei que deu autonomia para o Banco Central operar, com mandato para o presidente e diretores, e disse que confia que a autoridade monetária terá “sabedoria para tomar as medidas conducentes ao pleno controle da inflação”, mas que precisa ser auxiliado pela “administração judiciosa das contas públicas”. “A responsabilidade fiscal é um patrimônio do povo brasileiro e um legado que gera previsibilidade e confiança para os agentes econômicos. Sem responsabilidade fiscal, não há prosperidade e estabilidade monetária”, defendeu.

Para o deputado do PP, aliado de Bolsonaro, a inflação e o desemprego são os principais desafios para 2022. Ele disse que as soluções para esses problemas devem vir de “instrumentos testados e reconhecidos pela ciência econômica” e que “truques ilusionistas ou aventuras temerárias”, a “história já provou”, causarão “depressão econômica, carestia e sofrimento”. Recentemente, Bolsonaro discutiu com seus ministros zerar os impostos sobre os combustíveis neste ano eleitoral, o que causaria um rombo bilionário na arrecadação.

O presidente da Câmara também deu recados ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que lidera as pesquisas de intenção de voto em 2022 e defendeu desfazer a reforma trabalhista. Lira destacou que “nunca é demais reiterar a soberania do Parlamento” e que “muitas conquistas foram construídas e alcançadas” pelo votos dos deputados. “Por isso, quero ressaltar que, independentemente da conjuntura futura, o que o Brasil conseguiu aqui é definitivo. E como Poder mais transparente e democrático da República não permitiremos retrocessos discricionários e quiçá imperiais”, disse.

Já Pacheco fez um discurso em tom mais político, lembrando as eleições de outubro, e criticou a divulgação de “fake news” e as tentativas de não respeitar o resultado das urnas. A crítica foi feita ao lado de Bolsonaro, que é alvo do Supremo Tribunal Federal (STF) de um inquérito sobre disseminação de notícias falsas e já atacou as urnas eletrônicas.

“Estejamos vigilantes contra a mínima insinuação de investida autoritária. Caberá ao povo bem escolher seus representantes; aos vencedores, fazer de seu mandato um verdadeiro serviço; e aos perdedores, respeitar o resultado das urnas. É fundamental garantir que o processo eleitoral não seja afetado por manipulações de disparos em massa através robôs. Das instituições da República, esperemos a fiscalização e punição daqueles que atentem contra o processo eleitoral. Do eleitor, roguemos senso crítico e responsabilidade para distinguir fatos verdadeiros das inaceitáveis ‘fake news’”, disse Pacheco.

Em outro recado ao Executivo, ele também defendeu a democracia e destacou que um dos desafios do Congresso será a “defesa da democracia” neste ano eleitoral. “Pacificação das relações, diálogo e união das instituições: essa é a fórmula que devemos seguir para cumprir aquilo que a sociedade brasileira espera de nós”, discursou. Tentando se cacifar como uma “terceira via” na disputa eleitoral, o pré-candidato do PSD pediu ainda que os eleitores tenham “esperança” no poder do voto”. “Votar para simplesmente evitar ou derrotar um determinado candidato por mero preconceito ou rejeição é fazer pouco do poder do voto”, disse.

O presidente do Congresso fez um balanço dos projetos aprovados, tanto no Senado como na Câmara, defendeu as reformas tributária e administrativa “amplas”, falou sobre um “projeto de nação” que tenha a educação “como ponto de partida” e o fortalecimento do municipalismo. Diante do ministro da Economia, Paulo Guedes, que acompanhou Bolsonaro na cerimônia, ele disse que é “inconcebível” que as pessoas passem fome no país.

Num ponto em comum dos discursos, Pacheco e Lira defenderam a aprovação das reformas tributária e administrativa, pediram que os parlamentares e políticos deixem a eleição para outubro e foquem na votação de projetos estruturantes e demonstraram preocupação com a pandemia, afirmando que a covid-19 não está vencida e que é preciso medidas para garantir a saúde da população e a vacinação.