Valor Econômico, v. 23. n. 5659, 31/12/2022-02/01/2023, Brasil, A12

Em ‘condições adversas’, atividade entra em 2023 sob risco de retração

Anaïs Fernandes

 

A combinação de um cenário externo muito adverso com políticas monetárias doméstica e global apertadas e um horizonte fiscal rodeado de incertezas no Brasil tem imposto uma perspectiva de desaceleração para a atividade no país em 2023, e algumas instituições financeiras de peso não descartam uma recessão técnica, ou seja, dois trimestres seguidos de queda do Produto Interno Bruto (PIB).

A estimativa mediana do último boletim Focus indica que a economia brasileira deve desacelerar de 3% em 2022 para 0,8% em 2023, mas a projeção mínima para este ano é até de uma queda de 0,4%.

Essa desaceleração mais forte esperada para 2023 já começou, diz Cassiana Fernandez, economista-chefe para Brasil do J.P. Morgan, apontando a queda de 0,6% dos serviços em outubro, ante setembro, após cinco altas mensais seguidas. Os indicadores de confiança, observa, também sugerem uma desaceleração importante. A medida de alta frequência do J.P. Morgan para a atividade indica, segundo Fernandez, um desempenho próximo de zero do PIB no quarto trimestre de 2022. O banco projeta queda de 0,1%, ante o terceiro trimestre.

Para o PIB do primeiro trimestre de 2023, a expectativa do J.P. Morgan é de queda de 0,2%, na margem, seguido por contração de 0,1% entre abril e junho, emendando, assim, três trimestres de retração da atividade. “É uma recessão, mas bem leve, são números próximos da estabilidade”, pondera Fernandez. Para 2023, ela espera alta de apenas 0,2% do PIB, vindo dos 3% esperados para 2022.

O desempenho fraco da economia no primeiro semestre de 2023 é explicado, pelo lado da oferta, por um crescimento ainda baixo da indústria e por uma desaceleração relevante dos serviços, segundo Fernandez. Pelo lado da demanda, diz, espera-se uma desaceleração importante do consumo das famílias, que já estão com níveis de endividamento elevados.

“É um movimento natural e necessário para a gente conseguir reduzir as pressões inflacionárias. Vai ter todo o impacto do aumento da taxa de juros, que ocorreu de 2021 até metade de 2022 e deve atingir seu efeito pleno por agora”, afirma.

Fernandez alerta que o endividamento das famílias se dá em um cenário de elevada volatilidade das condições financeiras, não só pela alta dos juros, mas também por causa do risco fiscal atrelado às propostas do governo eleito e pelas adversidades do cenário internacional. “Por isso, a desaceleração não deve vir só do consumo das famílias, mas também do investimento privado”, acrescenta.

Fatores que contribuíram para a surpresa positiva com o PIB em 2022 - como a força da reabertura dos serviços, puxando o emprego, a resiliência do crédito e os preços elevados de commodities, que impactam positivamente a economia e a arrecadação pública - não devem se repetir na mesma magnitude em 2023, observa Fernandez.

O risco para a sua projeção de PIB neste ano ser maior está, principalmente, no primeiro trimestre, por causa da agropecuária. “As notícias do setor apontam que a safra possa ser maior do que a gente está colocando na conta, principalmente a parte de grãos”, afirma Fernandez. Tem também a política fiscal mais expansionista do novo governo que, no curto prazo, pode fazer com que o consumo das famílias ainda fique mais elevado, observa.

No fim do ano passado, o Congresso promulgou Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que amplia o teto em R$ 145 bilhões por um ano, além de excepcionalizar pouco mais de R$ 23 bilhões do controle fiscal, incluindo investimentos adicionais. “Dependendo da decisão que será tomada de compensação, se terá alguma volta de impostos ou medidas do lado das receitas, e da velocidade com que esses desembolsos serão feitos, pode ter, no curto prazo, um ou dois trimestres com PIB maior”, afirma Fernandez.

No médio prazo, no entanto, a medida tende a levar a uma piora da atividade, diz Fernandez. “Podemos acabar tendo não só condições financeiras ainda mais apertadas, como também impacto sobre a expectativa dos agentes. Se eles olham a trajetória fiscal e consideram insustentável, começam a antecipar medidas de correção, seja com um prêmio de risco maior nos ativos, seja adotando uma postura mais cautelosa que impacta decisões de investimentos.”

A Trafalgar, que espera um PIB estagnado em 2023, vindo de alta de 3,1% em 2022, projeta contração da atividade de 0,2% no primeiro trimestre deste ano, em relação aos três meses imediatamente anteriores, e de 0,5% no segundo. O cenário também envolve um misto de desafios locais, como o ciclo econômico relacionado aos juros elevados, e mundiais. “A impressão é que a janela de oportunidades global está se fechando”, diz o economista-chefe Guilherme Loureiro. E, com as incertezas no campo fiscal no Brasil, a chance é de esse PIB zerado em 2023 ser ainda menor, segundo o economista.

Conforme o processo de desaceleração global comece a arrefecer e um corte de juros por parte do Banco Central se torne possível - hipótese que está sob a ameaça de não se concretizar em 2023 -, a atividade poderia esboçar um segundo semestre melhor, diz Loureiro. “Mas não é uma recuperação forte”, pondera, projetando altas de 0,1% e de 0,3% do PIB no terceiro e no quarto trimestre, na margem, respectivamente. “A recuperação fica mais para 2024.”

O J.P. Morgan também tem um PIB positivo “bem suave” no segundo semestre, diz Fernandez, que espera altas de 0,2% no terceiro trimestre e de 0,3% no quarto, na margem, pela ordem. Ela concorda que o cenário externo, motor importante para a atividade brasileira em 2022, estará mais desfavorável neste ano. “Não só pelo próprio ciclo de ajuste de taxa de juros nos países desenvolvidos, mas porque a gente tem a mesma dúvida que tinha em relação ao Brasil, que é se seria possível fazer o processo de desinflação sem causar uma recessão. E, assim, como para o Brasil, acreditamos que não vai ser”, afirma Fernandez.

Nas últimas semanas, algumas indicações surgiram de que, talvez, a desaceleração global não seja tão acentuada quanto se antecipa, por exemplo, com a flexibilização da política de covid zero na China, observa Gustavo Arruda, chefe de pesquisa para América Latina do BNP Paribas. “Mas é muito cedo para cantar vitória. E, se a atividade não desacelerar o tanto que imaginamos, talvez até a política monetária global tenha de fazer mais.”

O BNP Paribas espera recessão técnica entre o quarto trimestre de 2022 (-0,1%) e o primeiro de 2023 (-0,1%), com o PIB ligeiramente positivo a partir de então em cada trimestre (entre 0,1% e 0,2%). “Vemos desaceleração na virada do ano, e a impressão que temos é que o risco é de ser até mais fraco”, diz Arruda. Para 2023, o banco projeta alta de 0,5%. “Pela combinação de política monetária trazendo para baixo no Brasil e no mundo, é difícil imaginar que vamos crescer muito”, afirma o economista.

O Citi também tem uma perspectiva para o PIB brasileiro em 2023, de alta de 0,3%, abaixo do consenso, com duas retrações seguidas de 0,2%, no primeiro e no segundo trimestre. “Temos um crescimento global muito baixo, no limiar de uma recessão”, diz Leonardo Porto, economista-chefe do Citi Brasil. “De qualquer forma, para o país é commodities para baixo, política monetária contracionista e sem ter um vento favorável vindo do aumento de endividamento das famílias, que poderia amenizar esse processo.”