O Globo, n 32.358, 11/03/2022. Política, p. 06

Lula defende diálogo com quem votou contra Dilma

Sérgio Roxo


Ex-presidente alega que eleição não será fácil: 'Se eu não for conversar com quem votou no impeachment, vou deixar de conversar com pelo menos 400 deputados”. PT planeja lançamento da pré—candidatura ao Planalto em evento que reúna de Alckmin a Boulos

Afirmando que a eleição não será fácil, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu ontem a necessidade de diálogo e composição com políticos que apoiaram o impeachment da presidente Dilma Rousseff. O petista pretende lançar oficialmente sua précandidatura à Presidência da República no começo de abril, em evento com o ex-governador paulista Geraldo Alckmin, que deve ser o vice em sua chapa.

Em ato com mulheres parlamentares e representantes de movimentos sociais em São Paulo, Lula ouviu críticas às alianças que tem costurado e a Alckmin.

— A luta não será fácil. Não existe essa de já ganhou. Eleição só se sabe o resultado depois da apuração. A gente vai ter que ter uma grande habilidade de construir as nossas alianças, muita habilidade para conviver com pessoas. Por exemplo, tem gente que fala: pô, Lula você conversou com um cara que votou no impeachment. Se eu não for conversar com quem votou no impeachment, vou deixar de conversar com pelo menos 400 deputados. Como a gente faz? Como a gente constrói? — discursou Lula, que lidera as pesquisas de intenção de voto.

O ex-presidente acrescentou que, se eleito, será preciso ter maioria no Congresso para implantar mudanças no país e que isso tem que ser construído durante o processo eleitoral. Antes do discurso, duas participantes do ato haviam criticado as composições que estão sendo articuladas por Lula.

Sonia Coelho, da Marcha Mundial das Mulheres, disse para o ex-presidente: —Não confie em golpista. Já Junéia Batista, secretária da mulher da CUT, afirmou:

— Eu nem quero saber da história do vice, depois a gente briga.

No discurso, Lula ressaltou que a sua candidatura não pode ser só do PT. Setores do partido têm se colocado contra a indicação de Alckmin a vice:

—Não pode ser a candidatura de Lula pelo PT, a candidatura tem que ser de um movimento que queira reconstruir a democracia de verdade neste país.

O ex-presidente relembrou ainda uma frase antiga, dos tempos no governo, em que se classifica como uma “metamorfose ambulante”:

— Se for necessário, eu mudo de posição.

LANÇAMENTO EM ABRIL

Lula definiu que lançará a sua pré-candidatura à Presidência da República no começo do próximo mês, após o fim da janela partidária — período no qual deputados podem trocar de sigla sem o risco de perder o mandato. A ideia é fazer um grande ato em São Paulo que reúna de Alckmin, que praticamente sacramentou sua filiação ao PSB, a integrantes do PSOL.

Petistas alimentam a expectativa de que até lá o líder sem-teto Guilherme Boulos aceite retirar a sua pré-candidatura a governador de São Paulo pelo PSOL. Se isso acontecer, o evento servirá também para lançar o ex-prefeito Fernando Haddad (PT) na disputa ao governo paulista.

O evento ocorrerá após a janela partidária. Assim, o ato poderá receber lideranças que mudarem de legenda no período para apoiar a chapa de Lula.

A ideia é que o ex-presidente seja apresentado como pré-candidato dos três partidos que decidiram se unir em uma federação: PT, PCdoB e PV. Além disso, ainda receberia o apoio do PSB, do PSOL, do Solidariedade e de uma parte da Rede Sustentabilidade. O ex-presidente tenta costurar um palanque amplo para a eleição.

O PSB já anunciou que estará com Lula, independente de arestas nos estados. O Solidariedade também tem manifestado a mesma intenção. Já o PSOL ainda discute a inclusão de pontos no programa de governo do petista, como a revogação das reformas trabalhista e da Previdência e do teto de gastos, para declarar o apoio.

Pelos planos, Alckmin deve participar do ato como indicado oficial do PSB para o posto de vice. A escolha do ex-tucano, porém, para compor a chapa com Lula ainda precisaria ser aprovada em um encontro do PT, a ser realizado mais para frente.

Apesar de falar como postulante ao Palácio Planalto desde que recuperou os seus direitos políticos em março do ano passado, Lula ainda resiste a assumir a sua pré-candidatura e tem dito que tomará a decisão sobre o assunto no primeiro trimestre deste ano.