Valor Econômico, v. 23. n. 5659, 31/12/2022-02/01/2023, Política, A3

Lula toma posse com apelo à democracia

Maria Cristina Fernandes

 

Depois da eleição mais apertada da história, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou ao poder para seu terceiro mandato alternando o apelo pela reconstrução da democracia e dos valores republicanos, que marcou o discurso no Congresso Nacional, e o resgate dos direitos sociais com combate à miséria, clímax da fala no parlatório do Palácio do Planalto. “Sob os ventos da redemocratização, dizíamos: ditadura nunca mais! Hoje, depois do terrível desafio que superamos, devemos dizer: democracia para sempre”, disse no Congresso.

Subiu a rampa acompanhado de Resistência, a cachorra adotada por Janja no acampamento em frente à prisão da Polícia Federal, em Curitiba, e de seis pessoas: Aline Santos, catadora, cacique Raoni Metuktire, Weslley Rodrigues, metalúrgico do ABC, Murilo de Quadros Jesus, professor, Ivan Baron, pessoa com deficiência, Jucimara dos Santos e Flávio Pereira, da vigília de Curitiba, além de Francisco Santos, de 10 anos, morador de Itaquera. Recebeu deles a faixa presidencial que Jair Bolsonaro se recusou a passar.

Lula encontrou um Palácio com uma representação militar restrita aos comandantes das Três Forças, ao contrário da posse de Bolsonaro em 2019, quando as fardas dominaram o salão nobre. No seu lugar, além de ministros, parlamentares e seus familiares, havia indígenas e representantes de comunidades, como aqueles que portavam bonés com a sigla “CPX”, do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, visitado pelo novo presidente na campanha. Ao subir ao parlatório, Lula devolveu, à multidão que ocupava a Praça dos Três Poderes, a saudação que lhe era feita nos 580 dias que passou preso: “Boa tarde, povo brasileiro”.

Neste discurso, emocionou-se como não o havia feito no Congresso, ao mencionar as crianças que vendem bala ou pedem esmola, além de “trabalhadoras e trabalhadores desempregados exibindo, nos semáforos, cartazes de papelão com a frase que nos envergonha a todos: “Por favor, me ajuda”. Neste momento, o choro de Lula interrompeu o discurso e Janja veio em seu socorro.

Se no Congresso o novo presidente mencionara as afrontas à democracia vividas pelo país nos últimos quatro anos para reiterar a frente ampla que prometeu na campanha (“Nunca os recursos do Estado foram tão desvirtuados em proveito de um projeto autoritário de poder”), no Palácio, a frente prometida voltou-se ao combate à miséria: “É urgente e necessária a formação de uma frente ampla contra a desigualdade que envolva a sociedade como um todo”. É com ambos que pretende unir um eleitorado que, segundo o Datafolha, está dividido sobre as perspectivas de seu governo - 51% apostam que seu governo será melhor que o de Bolsonaro.

A posse explorou ao limite os simbolismos de sua eleição, alternadamente o apelo à frente ampla e a saudação àqueles que estiveram a seu lado, de suas origens políticas à prisão em Curitiba - do percurso no Rolls-Royce à subida da rampa. Percorreu a Esplanada dos Ministérios ao lado da primeira-dama, Janja da Silva, e do vice-presidente Geraldo Alckmin e da vice-primeira-dama, Lu Alckmin. A gravata de Lula era azul e a de Alckmin, vermelha. A tradição havia sido abandonada na posse de 2019, quando Jair Bolsonaro, além da então primeira-dama Michelle, só teve a companhia do filho do meio, o vereador Carlos Bolsonaro. Ao contrário de Lula e Janja, esfuziantes na saudação ao público, Alckmin e a esposa acenavam mais contidamente aos populares.

Lula explorou os mesmos simbolismos ao improvisar, no Congresso, a explicação sobre a caneta com a qual assinou o termo de posse. Disse que pretendia assinar aquele de 2003 com a caneta que havia recebido num comício de 1989, no Piauí, de um apoiador que apostou na sua eleição à Presidência. Como a havia perdido, usou aquela emprestada pelo então presidente do Congresso, Ramez Tebet, o senador, já falecido, que era pai da ministra do Planejamento e sua adversária na campanha, Simone Tebet.

Agora, porém, disse que havia encontrado a caneta recebida em 1989 e a usava naquele momento em homenagem ao povo do Piauí. O Estado lhe conferiu a maior votação proporcional no país, com 77% dos votos. A entrega do Ministério do Desenvolvimento Social, inicialmente pretendido por Simone, ao ex-governador e senador eleito pelo Piauí Wellington Dias foi uma das mais recorrentes celeumas da transição.

O recurso aos simbolismos vale-se, em grande parte, da permanência de expectativas, como aquelas expressas nas ruas da capital federal desde a noite anterior, pela volta da normalidade democrática. Se foi emoção que moveu a multidão que acompanhou a posse do primeiro operário na Presidência da República, em 2003, foi alívio o que marcou seu retorno, 20 anos depois, numa capital federal tomada por um público estimado em 300 mil pessoas. “É hora de reatarmos os laços com amigos e familiares, rompidos pelo discurso de ódio e pela disseminação de tantas mentiras”, disse, no parlatório.

Este alívio, porém, não se sustentará ao longo de quatro anos. Terá que ser preenchido pelas entregas do governo, capazes, como disse, de tirar o pobre da “fila do osso” para colocá-lo no orçamento. Por isso, Lula reiterou, em ambos os discursos, a herança recebida, chegando, no parlatório, a citar trechos dos relatórios da transição, com ênfase na tragédia da pandemia: “O que o povo brasileiro sofreu nestes últimos anos foi a lenta e progressiva construção de um genocídio”.

A reiterada estratégia de Lula de enfatizar a “herança maldita” de Bolsonaro, em busca de prolongar a lua de mel de seu governo, porém, esbarra em alguns indicadores. Se, em 2002, o novo presidente encontrou um desemprego de 11,7%, o indicador agora é de 7%. Se a inflação era de 11%, agora é de 5,8%. Lula, porém, como define um petista remanescente da criação do PT, quatro décadas atrás, sucederá a um presidente que se tornou o melhor comunicador do país. Por isso, ante enroscos como os impostos sobre os combustíveis, numa tentativa de equilibrar a pressão fiscal, de um lado, e a inflação, do outro, caprichou nos discursos e nos simbolismos da posse.