Valor Econômico, v. 23. n. 5659, 31/12/2022-02/01/2023, Política, A6

Pacheco defende reforma tributária, ignorada por Lula em discurso

Raphael Di Cunto, Lu Aiko Otta, Caio Sartori e Marcelo Ribeiro, Valor

 

Ignorada nos discursos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Legislativo e no parlatório do Palácio do Planalto, a reforma tributária é uma das prioridades deste ano ao lado da definição do novo arcabouço fiscal do país, afirmou o presidente do Congresso, senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG). “Investimentos demandam recursos. Esse é um desafio que se põe aos empossados”, disse. “Temos sistema de arrecadação que precisa ser desburocratizado e simplificado para permitir mais justiça social.”

Pacheco afirmou ainda em seu discurso durante a posse de Lula que a democracia brasileira foi testada em 2022 e saiu vitoriosa. “A Justiça eleitoral fez valer a vontade popular”, afirmou. Para ele, há sentimento renovado de confiança porque Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) são “políticos experientes, capazes e habilidosos”. Ele concordou com o petista de que o combate à miséria deve ser prioridade e destacou que é preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre as políticas monetária, fiscal e social.

O discurso de Lula ao ser empossado foi enaltecido por políticos presentes, principalmente pela defesa da redução de desigualdades sociais, do fortalecimento de políticas ambientais e da democracia. O deputado Luís Miranda (Republicanos-DF), que denunciou suposto esquema de desvio de dinheiro na compra de vacinas e rompeu com o governo Bolsonaro na época, foi à posse e elogiou a fala do petista. “Acredito que se o discurso dele for colocado em prática, ele fará um grande governo”, opinou Miranda, que não foi reeleito.

Ex-ministra da Secretaria de Governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, a deputada Flávia Arruda (PL-DF) participou da cerimônia e disse que as divergências com o eleito não podem ser maiores do que o desejo de encontrar soluções para o país. “Quando o presidente eleito fala de reconciliar o país , recebo como um gesto político importante. Quando fala de diminuir desigualdades sociais , também vejo como um consenso possível entre as mais diversas correntes políticas”, afirmou.

Já o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), destacou que Lula “mordeu e assoprou”. “Ao mesmo tempo em que pregou união, criticou o campo político oposto. Vejo isso com normalidade, foi uma eleição ganha por uma diferença muito pequena”, disse ao Valor o governador, que apoiou Bolsonaro na eleição e foi neste domingo o único mandatário do Sudeste na posse.

A presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), refutou que discurso tenha sido duro demais nos ataques a antiga gestão e disse que primeira fala de Lula como presidente “reforçou os compromissos de campanha e mostrou para o Brasil o que vai ser o governo dele”. “Estamos fazendo uma conciliação, um governo de frente ampla com partidos que nem estiveram com a gente no primeiro turno”, disse.

O deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS), único de oposição a comparecer à posse de Bolsonaro em 2019, disse que gostou discurso do petista. “Embora pontue bem as diferenças, ele chamou a responsabilidade de que o Brasil precisa ser unificado e sem isso não haverá desenvolvimento”, afirmou o deputado, presente a todas as posses de todos os presidentes desde Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Para o deputado Zé Silva (Solidariedade-MG), Lula “deu os recados que precisam ser dados” pelo fim da polarização. “Achei muito interessante o destaque para a pauta da sustentabilidade. Somos um país com um agro muito forte, mas sem sustentabilidade não passaremos de uma ilha”, disse. Ele também ressaltou a preocupação com o desenvolvimento agrário e o combate à fome, com a recriação de ministério para esta área.

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), evitou comentar o discurso. Apoiador de Bolsonaro na eleição, ele se manifestou pelo Twitter sobre o ato, dizendo que mais um capítulo da história foi escrito. “É hora de celebrarmos a estabilidade de nossas instituições e torcer pelo futuro do Brasil e dos brasileiros”, afirmou na rede social. Lira, pelo protocolo, não discursou.