O Globo, n 32.358, 11/03/2022. Economia, p. 13

Guedes não descarta subsídio para o diesel se guerra continuar

Manoel Ventura


Para Economia e Minas e Energia, política de preços da Petrobras será mantida

O ministro da Economia, Paulo Guedes, indicou ontem, pela primeira vez, que o governo pode adotar subsídios do Tesouro Nacional para os combustíveis, caso a guerra na Ucrânia se prolongue. Ainda assim, ele e o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, descartaram ontem alterações na política de preços da Petrobras, que repassa para o consumidor as flutuações na cotação do petróleo e do dólar.

— Nós vamos nos movendo de acordo com a situação. Saímos de uma guerra terrível, que foi a da pandemia, e fomos atingidos por outro choque, que veio de fora. Se isso se resolve em 30, ou 60 dias, a crise estaria endereçada. Agora, vai que isso se precipita, vira uma escalada, aí sim você começa a pensar em subsídio —afirmou.

PAÍS GIRA EM CIMA DO DIESEL

Para o ministro, é necessário beneficiar o diesel neste momento (com a votação dos projetos no Congresso) porque esse combustível é usado no transporte, descartando redução da gasolina neste momento:

— O que foi aprovado até agora é para atenuar o impacto do diesel. O Brasil gira em cima do diesel. Esse foi um pedido do presidente, para ter uma atenção especial com os caminhoneiros. É o transporte público e o transporte rodoviário.

Perguntado sobre o impacto dos reajustes para a população, Guedes disse que guerra é “sinônimo de sacrifícios”:

— Qualquer outra ideia é populismo. Dizer assim: “olha, teve uma guerra, agora todos os salários vão subir, a comida ficou barata”, isso não existe. O povo brasileiro é maduro, e a democracia é resiliente. Temos que ter orgulho da capacidade de resposta da democracia brasileira.

Os dois ministros negaram qualquer mudança na política de preços da Petrobras e disseram que isso não foi discutido no governo, embora o presidente Jair Bolsonaro tenha feito diversas críticas ao mecanismo.

— Nós nunca pensamos em alterar a política de preços da Petrobras — disse Guedes. Albuquerque acrescentou: —O reajuste que houve hoje (ontem) da Petrobras é um procedimento da própria empresa, como de outras empresas que vendem derivados de petróleo no Brasil.

Albuquerque afirmou que a política de preços é uma lei, e não uma vontade do governo.

—É uma lei de mercado. O preço é fruto da disponibilidade do produto. O que existe hoje é uma escassez do produto combustível, particularmente do diesel, no mundo. Porque falta petróleo e capacidade de refino —disse Albuquerque.

Bolsonaro, mirando a campanha à reeleição, tem indicado, porém, que não deve deixar a estatal brasileira repassar integralmente a alta do petróleo no mercado internacional aos preços do mercado interno. Na segunda-feira, ele disse que a paridade da empresa com os preços internacionais “não pode continuar”.

CRÍTICA É ‘NATURAL’

Guedes disse ser natural que o presidente se preocupe com os preços. O ministro de Minas e Energia também afirmou que as críticas de Bolsonaro são normais.

— O presidente e qualquer cidadão, inclusive nós, quando vê o preço de combustível e de qualquer commodity, evidentemente que vai criticar. Mas não somos nós que fixamos os preços. Os preços são fixados de acordo com a oferta e a demanda. O que está ocorrendo com os combustíveis, da mesma forma que acontece com trigo e soja, é que, se tem maior demanda, os preços sobem —disse.