O Globo, n 32.358, 11/03/2022. Política, p. 07

Leite admite chance de disputar Presidência e conversa com PSD

Dimitrius Dantas


Após desistência de Pacheco, sigla de Kassab se movimenta  para atrair governador gaúcho, que ainda dialoga com PSDB 

Um dia após o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), desistir de concorrer ao Palácio do Planalto, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), reforçou ontem os sinais de que planeja assumir uma chapa presidencial, tendo como opção o partido de Gilberto Kassab. Após participar de evento nos Estados Unidos, Leite admitiu que discute a candidatura com aliados, embora sem especificar por qual sigla. Integrantes do grupo político de Leite, como a ex-senadora Ana Amélia (PP-RS), já preparam uma migração para o PSD.

O governador gaúcho disse que sua decisão será tomada nas próximas semanas, e reconheceu estar “com pressa”. Para disputar a Presidência em outubro, a legislação exige que, em até três semanas, Leite esteja filiado ao partido pelo qual pretende concorrer e também renuncie ao governo. Segundo o colunista do GLOBO Lauro Jardim, interlocutores de Leite afirmam que a maior probabilidade é de uma filiação ao PSD. Aliados do governador também mantêm conversas no PSDB, o que dependeria de uma desistência do governador de São Paulo, João Doria, que derrotou o gaúcho nas prévias e tornou-se pré-candidato tucano à Presidência. Doria, no entanto, tem sido cobrado internamente por seu desempenho nas pesquisas.

— Eu acredito que temos que contribuir para criar uma alternativa para o país. Há muitas pessoas que pensam que eu posso contribuir como candidato nesta eleição, seja pelo que fizemos no Rio Grande do Sul, seja porque eu sou um político jovem que pode mostrar para a população este caminho — afirmou Leite, em entrevista ao “Atlantic Council” em Washington.

Na entrevista, Leite deixou em aberto a hipótese de uma candidatura presidencial pelo PSDB, sob o argumento de que pesquisas eleitorais teriam mostrado seu nome melhor posicionado do que o de Doria.

— Respeito ele e respeito a decisão do partido, mas o que está sendo mostrado é que nós podemos ter uma condição melhor para discutir essa alternativa com a população —disse o governador gaúcho.

MOVIMENTOS DE ALIADOS

Uma eventual migração de Leite para o PSD pode ter impacto também em palanques estaduais. No Rio Grande do Sul, de acordo com o blog da jornalista Andréia Sadi no g1, a ex-senadora Ana Amélia avalia desembarcar no PSD em um movimento alinhado com Leite. Atual titular da Secretaria Extraordinária de Relações Federativas e Internacionais no governo gaúcho, Ana Amélia disse ter recebido convites do PSDB e do PSD, e que examina a sigla de Kassab para manter-se no grupo de Leite.

Outro nome que pode acompanhar Leite é o vice governador do Rio Grande do Sul, Ranolfo Vieira Jr., que havia migrado para o PSDB no ano passado com o objetivo de ser o candidato à sucessão no estado — já que Leite sinalizou desde a campanha de 2018 que não disputaria a reeleição estadual. Com a possível renúncia de Leite para se desincompatibilizar e disputar a Presidência, Vieira tende a assumir o governo em abril e tentar uma recondução para um novo mandato.

Em São Paulo, já preparando um palanque para a candidatura presidencial de Leite, Kassab articulou em fevereiro a filiação do prefeito de São José dos Campos, Felício Ramuth, que deixou o PSDB. Ramuth havia apoiado Leite nas prévias tucanas e foi lançado como pré-candidato do PSD ao governo estadual.

Ontem, Kassab divulgou uma nota na qual elogiou Pacheco por comunicar a desistência da corrida ao Planalto, avaliando que o presidente do Senado entendeu “não ser este o momento adequado” para concorrer ao Executivo. A cúpula do PSD vinha mostrando impaciência nos bastidores com a demora de Pacheco em oficializar sua saída da disputa presidencial, movimento que ele já ensaiava nas últimas semanas, o que vinha por sua vez travando os avanços do partido para filiar Leite e aliados.

Apesar da aproximação entre Leite e PSD, parte das lideranças do PSDB tem apelado ao pragmatismo para convencer o governador gaúcho a ficar no partido. Uma das teses defendidas internamente é que ele quebre uma promessa de campanha e dispute a reeleição, para não colocar em risco sua sucessão. Além do vice-governador Ranolfo Vieira Jr., que não tem o consenso da base governista e é pouco conhecido pelo eleitorado, outros partidos aliados da gestão Leite, como MDB e o próprio PSDB, planejam ter candidato próprios se Leite e seus correligionários migrarem para o PSD.

Hoje, o esforço do PSDB é para uma composição entre Doria e a senadora Simone Tebet (MS), pré-candidata do MDB. É considerada até a possibilidade de Doria ser vice, caso não melhore seu desempenho nas pesquisas. Há temor ainda de que Leite possa ameaçar essa aliança de centro. O governador gaúcho, que cumpre agendas nos Estados Unidos até a próxima segunda-feira, deve anunciar seu futuro após retornar ao Brasil.

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