Valor Econômico, v. 23. n. 5659, 31/12/2022-02/01/2023, Agronegócios, B8
Fávaro diz que priorizará produção sustentável e reaproximação da UE
Rafael Walendorff
O novo ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, tomará posse nesta segunda-feira, em cerimônia na sede da Embrapa, em Brasília, empresa que ele pretende “reconstruir”, como declarou ao Valor na semana passada, aumentando o orçamento para pesquisa e mudando a direção da estatal. Fávaro também quer trabalhar em conjunto com Marina Silva, ministra de Meio Ambiente, para construir políticas de produção sustentável e para combater as ilegalidades no campo e dos crimes ambientais.
“Vamos caminhar juntos. Desmatamento ilegal, garimpo ilegal, extração de madeira ilegal, tudo isso afeta diretamente a produção agrícola em dois aspectos: acabando com as nossas relações comerciais e com as chuvas, o clima, nosso maior ativo. Temos que cuidar do meio ambiente”, disse o ministro em entrevista exclusiva ao Valor.
Ele diz que dará atenção especial ao restabelecimento dos laços com a União Europeia. “Os europeus não querem mais saber de produtos que tenham origem no desmatamento”, destacou. “Vamos mudar a imagem do Brasil de largada e implementar políticas de produção sustentável”.
Outro dos objetivos do novo ministro é costurar o reforço no Programa ABC+ para financiar, via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a conversão de pastagens degradadas em lavouras. O tema foi discutido ainda na fase de pré-campanha com Aloizio Mercadante, que era coordenador do plano de governo do então candidato Lula e agora assumiu o banco estatal de fomento. “Tem tudo para dar certo. Aumentaremos muito a produção e vamos tirar a pressão sobre novos desmatamentos”, disse Fávaro.
Ele quer aumentar o volume de recursos para essa finalidade, com prazos de 15 anos para pagamento, sendo três de carência. Para micro e pequenos produtores, a ideia é dar subvenção direta. “Defendo que produtores pequenos, de 20 ou 30 hectares, por exemplo, acessem o financiamento e pague só metade, o restante fica como subvenção do governo. É pouquinho para o Estado ao longo de 15 anos, e o ganho será imenso em produção, emprego, renda, divisas”.
Se der certo, o plano tem potencial de, em duas décadas, dobrar a área de cultivo no país, que atualmente é de cerca de 40 milhões de hectares. “Com o financiamento, podemos agregar 2 milhões de hectares por ano, que são 5% da área degradada que está propícia para agricultura. Em 20 anos, o Brasil dobra a produção sem derrubar uma árvore sequer. Será uma grande revolução”, afirma.
O novo ministro garantiu que não haverá taxação de exportações nem defesa de invasão de terras produtivas no país, grande receio de parte considerável do agronegócio, ainda avesso a Lula. Fávaro atribui isso à “indústria de fake news” contra o presidente da República da época da campanha. “Ele [Lula] nunca disse isso. Não vai taxar exportação, não vai tirar garantia de propriedade privada, o direito adquirido, não vai estimular invasão de terra produtiva de jeito nenhum”, assegurou.
Fávaro diz que, na verdade, a imagem e a postura de Lula serão de grande valia para o agro e que o presidente será o “grande embaixador” do setor para abrir novos mercados. “Vamos combater a fome com mais alimentos, principal objetivo do presidente Lula, e teremos mais excedentes para vender para o mundo. Para isso, precisamos de boas relações comerciais. O presidente Lula é muito habilitado para isso e vai nos ajudar a abrir mercados”, ressaltou.
Outra meta do ministro é priorizar ainda mais pequenos e médios produtores nos subsídios do crédito rural. A ideia é manter a equalização dos grandes apenas nas operações de investimentos. “Para custeio das lavouras, o empresário tem acesso ao crédito internacional e outros instrumentos que vamos aperfeiçoar, desintermediar o dinheiro, com políticas inovadoras e modernas”, comentou. “Vamos aproximar quem quer poupar do produtor que precisa captar, sem muita burocracia e com garantias”
Mas Fávaro sabe que o desafio de reduzir o custo dos financiamentos ao produtor sem afetar as contas do governo com a equalização não é simples. Segundo ele, será preciso um trabalho integrado, liderado por Fernando Haddad no Ministério da Fazenda, de austeridade fiscal, controle da inflação e aumento da arrecadação para pressionar a queda da taxa Selic e, consequentemente, fazer render mais o orçamento para o subsídio.
Quanto ao seguro rural, que penou no ano passado com o aumento dos custos e dos prêmios, a intenção é ampliar a verba e o alcance da subvenção. Mas, por ora, a rotina deve continuar a mesma de convencer a equipe econômica da importância do mecanismo.
“O seguro rural é uma política que precisa, no mínimo, ser mantida, mas, na medida do possível ampliada. Uma conquista que tivemos no orçamento e com a PEC da Transição foi a possibilidade de livre remanejamento de 25% dos recursos. À medida que tivermos demanda, precisamos convencer o Ministério da Fazenda e seremos atendidos”, finalizou.