O Globo, n 32.359, 12/03/2022. Economia, p. 13
Querosene mais caro leva a alta nas passagens aéreas
Ivan Martínez-Vargas
Companhias também preveem redução na oferta de voos e defendem medidas do governo para conter disparada do combustível
A forte alta dos preços de combustíveis causada pela guerra entre Rússia e Ucrânia já provoca aumento nos preços das passagens no Brasil e uma redução da oferta de voos. O querosene de aviação, derivado do petróleo, responde por um terço dos custos das linhas aéreas e tem mais de 50% de seus preços no Brasil indexados ao dólar, segundo a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear). A associação tem defendido “medidas emergenciais (dos governos) de contenção de preços que possam ser tomadas durante a vigência do conflito”. Na noite de ontem, o QAV foi incluído em texto sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro que zera impostos federais sobre o combustível até o fim do ano.
A nova turbulência atinge o setor aéreo em um momento em que a demanda vinha em retomada e, na aviação comercial doméstica, aproximava-se dos patamares pré pandemia. O presidente da Latam Brasil, Jerome Cadier, afirmou ao GLOBO que o momento voltou a ser de contração, com estratégias para minimizar perdas.
— Nessa hora, precisamos reajustar preços de passagens.
Uma série de voos que geravam margem deixaram de gerar de um dia para o outro com a volatilidade dos preços do petróleo. É preciso reajustar (os preços), isso afeta negativamente a demanda. Aí temos que reduzir a quantidade de voos. Isso já está acontecendo e vai continuar porque não sabemos o quanto vai durar essa guerra —afirma Cadier.
Na Latam, o movimento será 10% abaixo do projetado e de 2% a 3% inferior ao pré-Covid. Também afetada pela situação, a Azul diz que a guerra da Ucrânia “traz consequências devastadoras para todos os setores da economia” e que resultou em aumento exponencial do valor de várias commodities, em especial do barril de petróleo”.
A Azul admite que o cenário “poderá adiar uma retomada mais vigorosa”, embora não mencione ainda redução de oferta de voos.
ALTA DE 76,2% EM 2021
A Abear, que reúne Latam e Gol, ressalta que o querosene de aviação já havia acumulado em 2021 alta de 76,2%, “superando as variações do diesel (+56%), gasolina (+42,4%) e gás de cozinha (+36%)”. O encarecimento do querosene nos curto e médio prazos “poderá frear a retomada da operação aérea, o atendimento logístico a serviços essenciais e inviabilizar rotas com custos mais altos”, além de aumentar os prejuízos das três grandes aéreas brasileiras.