O Globo, n 32.360, 13/03/2022. Economia, p. 17
Frango e porco vão ficar mais caros, e produção deve cair
Os preços de carne suína e de aves estão represados há meses e, com a alta de insumos como o milho e a soja em meio à invasão da Ucrânia pela Rússia, a pressão de custos precisará ser repassada ao consumidor final, segundo Luis Rua, diretor de Mercados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). De acordo com analistas, fazer o repasse em meio a um cenário de inflação já elevada, economia estagnada e renda das famílias baixa não será trivial. A saída deve ser a redução da produção brasileira, segundo Leonardo Alencar, líder de Agro da corretora XP. O preço do ovo, alternativa de fonte de proteína mais comum em momentos de custo elevado da carne, também deve subir. Para o diretor da ABPA, parte da oferta brasileira deve ser capturada por mercados internacionais hoje atendidos pelas exportações ucranianas de frango. O país exportava anualmente 430 mil toneladas de frango, em especial a países da União Europeia e do Golfo Pérsico.
RENDA NÃO ACOMPANHA
A Ucrânia também é uma importante produtora de milho. O país e a Rússia respondem por cerca de 20% das exportações globais do grão. O conflito deve comprometer o plantio da safra, especialmente no país invadido pelas tropas do governo do presidente russo Vladimir Putin. Por isso, a quebra da produção já é dada como certa. A safra na região é anual, diz Alencar, diferentemente do Brasil, que tem duas safras ao ano.
A alta contínua do preço dos insumos e o choque de oferta vão pressionar ainda mais os produtores brasileiros, de acordo com Rua. No Brasil, a saca de 60 quilos de milho subiu de R$ 97,34 em 25 de fevereiro para R$ 103,57 na última sextafeira, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), alta de 6,4%.
—Mesmo com a perspectiva de uma safra de grãos melhor do que no ano passado, o custo tem aumentado e vai ser necessário repassar para o consumidor. Soja e milho aumentaram 150% desde o segundo semestre de 2020. Os custos industriais neste último ano também tiveram alta, especialmente o plástico, na ordem de 75% em 12 meses, e o diesel, cerca de 40% —explica o diretor da ABPA.
A alta média do preço do frango no país nos últimos dois anos, de acordo com o executivo, foi de aproximadamente 50%, o que comprimiu margens. —Há uma necessidade de repasse ao preço final, que varia dependendo do porte do produtor: pode ser de 5% em um e 15% em outro. É melhor o consumidor pagar mais caro agora do que não ter alguns produtores de frango —defende Rua. Até junho, segundo ele, “os custos de produção e logísticos não devem retroceder”. Para Alencar, da XP, o repasse de custos no cenário atual é complexo, uma vez que a renda média do consumidor não tem acompanhado a inflação. —Mesmo as empresas que decidam repassar custos, não sabem ainda em que grandeza vão fazê-lo, porque as pressões continuam. Há um aumento represado de fato que os produtores precisam solucionar, mas entramos em 2022 com um cenário desafiador, o comprometimento do orçamento familiar com alimentação já é alto —explica ele.
QUEDA DE AO MENOS 5%
A indústria de aves e suínos só vai conseguir repassar custos por meio de uma redução de produção na ordem de ao menos 5%, avalia o analista de agro da XP: —Hoje o consumo de carne de frango bateu recorde, em função da substituição da proteína devido à alta da carne bovina, que não sofre pressão com aumento de custo dos grãos e deve ter preços caindo.
—A parte de processados (aves e suínos) em um cenário de economia fraca não deve ser rentável, o foco neste ano é na commodity (carne in natura). A população consome mais a proteína mais barata. A tendência é de margens menores em toda a cadeia, inclusive no varejo —diz Alencar. (Ivan Martínez-Vargas)