Valor Econômico, v. 23. n. 5661, 04/01/2023, Empresas, B2
Geração ‘nem-nem’ é assunto sério
Wellington Vitorino
Você provavelmente já viu o termo “nem-nem”, usado para se referir à população jovem que nem estuda, nem trabalha.
Por trás da expressão singela, quase bem-humorada, se esconde um problema econômico e social grave. No Brasil, 36% das pessoas com 18 a 24 anos se encaixam nessa categoria.
Isso faz de nós o segundo país com mais jovens “nem-nem” dentre os membros da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). É o dobro do índice médio registrado nos países desenvolvidos.
A taxa elevada de desocupação entre os jovens brasileiros é, portanto, um problema estrutural, não mera contingência. Ele está relacionado a outros desafios sistêmicos da nossa sociedade, como a pobreza e a desigualdade ou, na esfera mais específica do mundo empresarial, a baixa produtividade, a falta de lideranças preparadas e a escassez de mão-de-obra qualificada.
O cenário global tampouco ajuda. Há uma crise generalizada do emprego, a qual afeta particularmente países os latino-americanos.
Nesse contexto, que alternativas temos para enfrentar o crescimento do desemprego jovem?
Tradicionalmente, atacamos problemas de trabalho e renda no Brasil pela via da transferência direta de recursos.
O melhor exemplo disso é o Bolsa Família. Apesar da eficácia do programa em reduzir a fome e a pobreza extrema de forma imediata, além de promover inclusão social, ele tem limitações.
A população brasileira deve crescer pelo menos até a década de 2040, quando, projeta-se, atingiremos um platô demográfico. Isso significa que o investimento de manutenção de um programa como o Bolsa Família deve crescer aceleradamente por, pelo menos, mais duas décadas.
A projeção desse quadro exige, portanto, que busquemos caminhos alternativos e complementares.
De acordo com o Banco Mundial, o acesso a bons empregos é o caminho mais efetivo para o aumento da mobilidade social no longo prazo. É o que preconiza também a ONU (Organização das Nações Unidas), por meio de seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), firmados ainda em 2015.
O oitavo objetivo listado pelo documento fala em “emprego pleno e produtivo” como estratégia para um crescimento inclusivo e sustentável.