O Globo, n 32.360, 13/03/2022. Mundo, p. 21

RÚSSIA REPOSICIONA TROPAS RUMO A CAPITAL



PUTIN AMEAÇA ATACAR COMBOIOS DO OCIDENTE

A maioria das forças russas concentradas perto de Kiev se espalhou ontem em unidades menores que chegaram a 25 km da capital, e não mais a 35 km, informou o Ministério da Defesa do Reino Unido em seu boletim diário de inteligência, o 17º dia da guerra. O boletim informou que a grande coluna russa a noroeste da capital —que se prolongava por dezenas de quilômetros, como um gigantesco engarrafamento — se dispersou “provavelmente para apoiar uma tentativa russa de cercar acidade ”. Pode haver também “uma tentativa da Rússia de reduzir sua vulnerabilidade aos contra-ataques ucranianos, que afetaram significativamente as forças russas ”, disse a Inteligência britânica. Num sinal de uma potencial escalada do conflito, a Rússia pela primeira vez alertou ontem os EUA que pode atacar carregamentos de armas do Ocidente para a Ucrânia.

— Alertamos os EUA que a entrega de armas orquestrada com uma série de países não é apenas um ato perigoso, mas também transforma esses comboios em alvos legítimos — avisou o vice-premier de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabkov, no canal de televisão Pervy Kanal. As entregas de armas têm sido realizadas em operações envoltas em segredo. Alguns embarques são coordenados por meio de centros logísticos na Romênia e na Polônia, que tem grande interesse em que a Ucrânia se proteja da Rússia. Horas após a advertência, o presidente Joe Biden autorizou um adicional de US$ 200 milhões em armas e outros equipamentos de defesa à Ucrânia, disse a Casa Branca. A decisão eleva a ajuda de segurança dos EUA ao país para US$ 1,2 bilhão, desde janeiro de 2021, e para US$ 3,2 bilhões desde 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia.

ALVOS ATINGIDOS

Apesar da aproximação à capital ucraniana, os avanços da Rússia seguem lentos. Alguns alvos foram atingidos durante a madrugada e as primeiras horas da manhã de ontem, mas não houve combates de grande porte na capital. Em

Vasylkiv, um centro industrial a 36 km ao sul que é alvo russo desde os primeiros dias da guerra, um aeródromo militar foi atingido por oito mísseis, segundo a prefeita da cidade, Nataliia Balasynovych. O ataque indica uma mudança tática russa: no terceiro dia de guerra, uma força tática tentara capturar o aeródromo, sendo repelida pela resistência ucraniana. Dessa vez, o aeródromo ficou “completamente destruído”, segundo o jornal Kyiv Independent, que acrescentou que o depósito de petróleo local também foi destruído, e um estoque de munição pegou fogo.

De resto, os avanços contra Kiev foram limitados nos últimos dias. Após ter conquistado posições nas cidades-satélites de Hostomel, Irpin e Bucha, a noroeste e oeste, e dominado uma estrada conhecida como Rodovia de Varsóvia, as forças russas não conseguiram avançar para o sul até controlar uma estrada para Zythomyr, um centro urbano a 150 km a oeste.

PAUSA OPERACIONAL

Apesar de peças de artilharia terem assumido posições de ataque na sexta-feira, há indícios de uma nova pausa operacional. Embora a Rodovia de Varsóvia tenha se tornado uma importante rota de abastecimento de mantimentos vindos da Bielorrússia —junto da estrada P02, ao Norte — os indícios são de que a tropa russa ainda enfrenta problemas de logística, que dificultam a entrega de combustível e alimentos. Segundo o último boletim do Instituto de Estudos da Guerra (ISW), sediado em Washington, “a aparente necessidade de realizar outra pausa operacional após os ataques fracassados de 8 a 9 de março apoia avaliações do Estado-Maior ucraniano de que Rússia tem um poder de combate muito menos eficaz em Kiev do que seus números sugerem”. Ruslan Leviev, da Equipe de Inteligência de Conflitos (CIT), um grupo de investigação online que verifica a atividade militar da Rússia, concorda que o eixo de Kiev é prioritário. “Os russos podem reconhecer o fato de que em algum momento terão que oferecer um acordo.

Portanto, eles precisam da maior alavancagem que puderem para as negociações. Isto significa o cerco de Kiev e um desastre humanitário na cidade”, escreveu. A Rússia, avalia o grupo, pode estar tentando concentrar um total de quase 21 a 22 grupos de batalhões táticos (BTGs) contra Kiev. Segundo as estimativas, a Rússia emprega entre 120 e 125 desses grupos na guerra. A Ucrânia, em afirmações que não podem ser confirmadas de modo independente, assegura que já inutilizou ou destruiu 31 BTGs russos. Ela também disse que cerca de 600 soldados russos se renderam ontem, e cerca de 1.300 soldados ucranianos morreram até agora.