O Globo, n 32.361, 14/03/2022. Política, p. 06

“FACEBOOK NAO DIZ COMO VAI LIDAR, COM ELEIÇÃO NO BRASIL”

Katie Harbath/ EX-DIRETORA Do FACEBOOK


Executiva afirma que plataforma deveria priorizar o país e aprimorar mecanismos para conter discurso de ódio e desinformação na campanha

Entre 2011 e 2021, Katie Harbath foi a voz do Facebook em eleições mundo a fora, com o papel de se relacionar com políticos, tribunais eleitorais e organizações da sociedade civil preocupadas com o papel das redes sociais no debate público. O tempo à frente da Diretoria de Políticas Públicas compreende justamente um período de polarização e ameaças à democracia, em que a própria empresa foi acusada de ajudar nesse racha ideológico global.

Um dos momentos marcantes ocorreu quando o ex-presidente americano Donald Trump não reconheceu o resultado das urnas e inflou seus apoiadores a fazerem o mesmo — o movimento resultou na invasão do Capitólio, que deixou cinco mortos.

Agora, ela alerta que a plataforma não está preparada para a hipótese de um cenário violento no Brasil, já que a capacidade de restringir mensagens que turbinam esse discurso é inferior à velocidade com que elas circulam. Hoje na função de diretora de Tecnologia e Democracia do Instituto Republicano Internacional, ela esteve no South by Southwest, festival americano sobre inovação, onde conversou com O GLOBO.

O que podemos esperar para a eleição no Brasil?

Fiquei impressionada como a situação lembra a dos Estados Unidos, inclusive com a preocupação de violência eleitoral. Não me parece que algo vai acontecer exatamente como foi no Capitólio, porque a confiança do Brasil no sistema de votação, nas urnas eletrônicas, me pareceu muito maior. Mas há muita preocupação sobre como ações violentas podem ser realizadas por milícias. É como se as pessoas estivessem se preparando para todos os cenários, como se qualquer coisa pudesse acontecer.

As redes sociais têm responsabilidade pelo que ocorreu no Capitólio?

Elas são uma parte do problema, já que são capazes de organizar e mobilizar as pessoas, para o bem ou para o mal. Essas plataformas também facilitam que uma retórica se espalhe. Eu sei que o Facebook está tentando marcar postagens no Brasil em casos de informações falsas, como eles fizeram nos Estados Unidos. Mas uma pesquisa da FGV (Fundação Getúlio Vargas) mostrou que a empresa não está fazendo um trabalho muito bom em encontrar esse conteúdo falso e rotulá-lo. As mensagens falsas continuam sendo publicadas no Brasil.

O Facebook e outras redes sociais poderiam ter evitado a tragédia do Capitólio ou o ambiente criado pelas próprias plataformas já é irreversível?

Não sei se elas poderiam evitar. O mundo se tornou um lugar em que as pessoas reagem às redes sociais de uma forma que faça aquilo se encaixar ao que elas vivem em suas vidas reais. Não acredito que as companhias podem simplesmente apertar um botão e fazer isso parar. Então, em vez de discutirmos se algum conteúdo deve ser ou não tirado do ar, o que é uma decisão muito difícil de se tomar, tendo em vista a liberdade de expressão, nós devemos pensar sobre o desenho dessas plataformas, em como elas podem ser mais seguras no compartilhamento de conteúdo. O Brasil deveria ser uma prioridade. A grande pergunta é o que o Facebook está fazendo para compreender o contexto brasileiro, o idioma e o processo eleitoral. São detalhes que a empresa ainda não esclareceu.

Mas, olhando da perspectiva que você tem hoje, acha que o Facebook faz algo de errado em relação a eleições?

A empresa faz muitas coisas corretamente. Mas eu gostaria que eles prestassem mais atenção ao resto do mundo. Houve tanta mobilização para a eleição americana de 2020, e é claro que era um momento muitíssimo importante. Só que o impacto da plataforma em outras nações, seja ela grande como Brasil ou pequena como as Maldivas ou Fiji, é enorme. A plataforma pode significar muito para a construção da democracia globalmente. Ela poderia direcionar o produto para identificar melhor o discurso de ódio e as informações falsas sobre eleições. Poderia ajudar mais as pessoas a saberem como funciona o processo eleitoral em seu país. E isso precisa ser feito em vários idiomas.

O Facebook deve ter o direito de banir políticos que espalhem informações falsas ou discurso de ódio?

A questão, para mim, é a liberdade de expressão. Em todo o mundo, o discurso político tende a ser mais protegido, em parte pelo risco de censura contra minorias e vozes de oposição. Então não me parece certo que uma empresa privada grande como o Facebook tenha o direito de escolher se um político pode ou não ter voz em sua plataforma. Mas talvez isso não seja mais um grande problema em breve. Nós estamos entrando numa fase de descentralização, com muito mais plataformas disponíveis e relevantes. Então, se uma plataforma considerar que um político está violando suas regras, o político vai poder buscar outra plataforma.