Valor Econômico, v. 23. n. 5662, 05/01/2023, Opinião, A13
Economia brasileira aquecida?
Mario Mesquita
A economia brasileira deve ter crescido cerca de 3% em 2022, acima da média de 2,2% observada no século XXI, após crescimento de 5% em 2021, quando o PIB superou o patamar pré-pandemia. Esse crescimento relativamente acelerado suscita um debate: estaria a economia brasileira aquecida?
Para avaliar essa hipótese, vamos considerar inicialmente indicadores mensais que são comumente utilizados para inferir o grau de ociosidade ou aquecimento da economia ao longo do tempo, pois tentam capturar a utilização dos fatores de produção, capital e trabalho.
Houve um momento de baixa ociosidade mas, sob os efeitos do aperto monetário doméstico, está ficando para trás
O primeiro refere-se à taxa de utilização da capacidade na indústria. A série de utilização da capacidade, com ajuste sazonal, da FGV começa em janeiro de 2001. O valor médio da série é de 79,3%. O ponto máximo da série, 85,5%, foi observado em março de 2008.
O ponto mínimo foi 57,3%, em abril de 2020, mês que marcou o impacto mais intenso da pandemia de covid-19 sobre nossa economia. Após o colapso inicial, a atividade industrial logo começou a se recuperar, e em outubro de 2020 já se encontrava em linha com a média histórica. A série então flutuou um pouco abaixo de 80% for vários meses, até agosto de 2021, quando (considerando a média móvel de três meses) passou a oscilar um pouco acima de 80%. O momento de maior aquecimento parece ter ocorrido no terceiro trimestre de 2022.
O mercado de trabalho mostra uma perspectiva um pouco distinta. Existem várias estimativas para a economia brasileira de qual seria a taxa de desemprego abaixo da qual os salários passariam a crescer além da produtividade do trabalho, elevando os custos, que poderia ser descrita como uma taxa neutra, do ponto de vista da dinâmica de salários e preços. Essa variável depende das instituições e legislação trabalhista, além de outros fatores, como a mobilidade da mão de obra entre setores e localidades.
A média da série da taxa de desemprego calculada pelo IBGE, com ajuste sazonal, que poderia ser uma primeira aproximação da taxa neutra, é de cerca de 10%. Estimativas mais recentes mostram que a taxa neutra de desemprego estaria no intervalo entre 8% e 10%. Objetivamente, observa-se que, habitualmente, quando a taxa de desemprego cai abaixo de 9%, os salários passam a subir mais rapidamente.
No início da pandemia, a taxa de desemprego estava em 11,9%, acima do intervalo usual para as estimativas de taxa neutra, sinalizando que não havia aquecimento no mercado de trabalho. Com o impacto da covid-19, a taxa de desemprego subiu ainda mais, para o maior valor da série, 15%, observado em novembro de 2020. A taxa passou a recuar desde então, caindo abaixo de 10% em maio de 2022, e abaixo de 9% em julho passado.
Desde então, a taxa de desemprego tem se aproximado de 8%, o patamar mais baixo das estimativas de taxa neutra. E os salários, monitorados por meio do IDAT-salários, um indicador proprietário do Itaú Unibanco, por sua vez, mostraram uma aceleração, de uma alta interanual média de 7,6% no último trimestre de 2021, para 8,6% no primeiro trimestre de 2022, 10,5% no segundo trimestre, recuando para 9,5% no terceiro trimestre (e 8,9% em novembro, o último dado disponível). Em resumo, há sinais de aquecimento no mercado de trabalho, mas esses, a julgar pela dinâmica salarial, têm arrefecido, depois de um auge que parece ter ocorrido em meados de 2022 - já a taxa de desemprego seguiu em queda até outubro passado.
Além dos indicadores acima, cabe observar que, em uma economia aberta, o aquecimento pode se manifestar, também, pela deterioração do déficit em conta corrente. Note-se que fatores relevantes para a determinação do déficit em conta corrente, como a razão entre preços de exportação e importação (termos de troca) e a taxa de câmbio real, encontram-se em patamares superiores às respectivas médias históricas, ao passo que o déficit em conta corrente se deslocou de um nível abaixo da média histórica (1,8% ante 2,4% do PIB) ao final de 2020, para o equivalente a 2,2% do PIB em meados de 2021, 2,8% ao final daquele ano, e 3,2% no terceiro trimestre de 2022, recuando na margem para 2,8% (novembro passado). Também no que se refere ao setor externo, o momento de maior amplitude do déficit em conta corrente, possível sinal de aquecimento da economia doméstica, foi no terceiro trimestre do ano passado.
O resumo dos indicadores sugere que o ciclo pós pandemia teria atingido um auge em meados de 2022, ainda que sua datação precisa dependa de análise mais rigorosa e profunda - a palavra final caberá ao Comitê de Datação de Ciclos Econômicos da FGV. Indicadores de alta frequência mais recentes, bem como a dinâmica apresentada na coluna, apontam que houve um momento de baixa ociosidade na economia, mas que o mesmo, sob os efeitos combinados do aperto monetário doméstico e da desaceleração global, estaria ficando para trás.