O Cerrado, a seca e a crise climática
Correio Braziliense, n. 22709, 24/05/2025. Cidades, p. 13
Mercedes Bustamante
O Cerrado, a vasta savana tropical do Brasil, é uma região de significância global em termos de biodiversidade. É de central importância para a provisão de água abastecendo diferentes importantes regiões hidrográficas brasileiras com uma contribuição que se expande além dos limites definidos para o bioma.
O ritmo e a evolução do Cerrado estão marcados pela alternância entre uma estação de chuvas e outra de seca. A estacionalidade moldou seus ecossistemas e suas espécies, os regimes de fogo e os modos de vida e a cultura de seus povos indígenas e comunidades tradicionais. A chegada da seca marca também as atividades da agricultura e da pecuária modernas, bem como a vida das cidades no coração do Brasil. Mudam os hábitos, os cuidados com a saúde e as paisagens.
No entanto, essa convivência antiga entre o Cerrado e a seca está ganhando um novo capítulo com consequências que já se manifestam e poderão se agravar: a crise climática. Um estudo científico, que analisou 700 anos de dados climáticos de estalagmites em Minas Gerais, revelou que a atual tendência de intensificação da seca começou na década de 1970, alinhando-se com o aumento da temperatura global e a expansão agrícola no Cerrado.
Os aumentos de temperaturas exacerbam a evaporação e reduzem a recarga de água subterrânea. A perda de vegetação nativa segue avançando pelos últimos grandes remanescentes de Cerrado em sua porção norte, na região conhecida como Matopiba (acrônimo que inclui os estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).
Dados recentemente divulgados pela iniciativa MapBiomas mostraram que, pelo segundo ano consecutivo, o Cerrado é o bioma com a maior área perdida de vegetação nativa. Em 2024, foram 652.197 hectares — mais da metade (52,5%) do total desmatado no Brasil. A região do Matopiba concentrou 75% da perda de vegetação nativa do Cerrado e cerca de 42% de toda a perda de no país.
Embora os números representem uma queda de 40% em relação a 2023, o patamar de perda de vegetação segue alto e os quatro estados do Matopiba estão entre as cinco unidades federativas que mais desmataram em 2024.
O avanço da perda de vegetação nativa representa uma dupla ameaça. O Cerrado já perdeu mais de 50% de sua vegetação nativa para o agronegócio, principalmente para a soja e a pecuária. As mudanças de uso da terra no bioma já o tornaram mais quente e mais seco, como constaram diferentes estudos em anos recentes.
Os ecossistemas naturais de raízes profundas são cruciais para a retenção de água. A mudança de vegetação reduz a evapotranspiração, um processo fundamental para a precipitação regional, e já diminuiu o fluxo dos rios em 8,7%, em média. As projeções sugerem uma queda de 34% nas vazões dos rios, até 2050, se a perda de vegetação nativa continuar, ameaçando o abastecimento de água para 90% dos brasileiros, que dependem da energia hidrelétrica proveniente do Cerrado.
A biodiversidade única do bioma, incluindo espécies criticamente ameaçadas de extinção, está em risco, pois as condições mais quentes e secas reduzem a formação de orvalho, uma fonte vital de água durante a estação seca. As estiagens mais prolongadas e a diminuição da umidade do solo já impactam a produção agrícola e a capacidade hidrelétrica. Povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, que dependem dos diferentes ecossistemas do Cerrado, enfrentam o deslocamento e a erosão cultural.
O enfrentamento dessa crise exige ações urgentes. Estudos apontam que o fim da conversão de áreas nativas (incluídas as supressões autorizadas e as ilegais), a restauração de terras degradadas e a adoção de práticas agrícolas sustentáveis poderia liberar recursos expressivos à economia do Brasil, por meio de mercados de carbono e bioindústrias.
Em ano de COP30 no Brasil, é preciso apontar que o destino do Cerrado é um lembrete claro da interconexão entre o clima, a biodiversidade e os meios de subsistência humanos. Sem intervenção imediata e efetiva, sistemas ecológicos fundamentais podem entrar em colapso, desencadeando impactos em cascata em todo país e também na América do Sul.
Por Mercedes Bustamante, professora do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília.