Valor Econômico, v. 23. n. 5664, 7,8 e 9/01/2023, Brasil, A2
Informação contra a desigualdade
Eduardo Belo


Uma empresa que queira melhorar a diversidade racial de seus quadros pode dar preferência na contratação de pessoas negras. Uma empresa que queira realmente fazer a diferença e reduzir a desigualdade precisa ir além. Mas como saber que políticas adotar e como atacar a questão com eficiência? Onde estão as informações necessárias? 

Uma iniciativa lançada em meados de dezembro promete ajudar com respostas. O Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdade Racial (Cedra) desenvolveu a plataforma Cedra (cedra.org.br/). On-line e gratuita, reúne dados públicos e permite cruzar informações sobre emprego, escolaridade, moradia e renda, entre outras. Em um só lugar, disponibiliza, organiza e analisa informações hoje dispersas ou de difícil acesso. 

Dados dimensionam e ajudam a entender distorções históricas 

A ideia da Cedra é “mostrar de maneira contundente o que é a desigualdade racial no Brasil”, conta o economista Eduardo Nunes, professor da PUC-Rio e ex-presidente do IBGE, um dos autores da iniciativa. Na medida em que for sendo alimentada, a plataforma se tornará cada vez mais uma ferramenta capaz de subsidiar com dados a elaboração de políticas públicas e programas privados de inclusão e diversidade. 

No momento em que empresas despertam para o tema - estudo da consultoria LHH Brasil que na média empresas são 21% mais lucrativas quanto têm diversidade de gênero e 33% mais com diversidade racial - e que o governo promete dar atenção a ele, a plataforma é um avanço na democratização e análise dos dados. “Com a criação dos ministérios da Desigualdade Racial e das Mulheres, muitos pontos do discurso do governo já são aspectos que a gente trabalha, então podemos contribuir com o debate”, comenta Nunes. 

A ideia, no futuro, é a Cedra se tornar mais do que um banco de dados e produzir estudos para municiar a discussão, além de receber estudos de fora. 

Com suporte financeiro e parcerias com empresas privadas e entidades do terceiro setor, o grupo já contratou profissionais para estruturar o serviço e alimentar a base de dados. A Cedra por ora reúne números do Censo Demográfico do IBGE, que serão atualizados nos próximos meses, com a conclusão da pesquisa iniciada apenas no ano passado. Em fevereiro serão agregados também dados da Pnad Contínua. Depois serão incluídas informações de outros bancos de dados públicos, como DataSUS. Em seguida entrarão informações do censo do ensino superior. A expectativa é ter também dados sobre violência. 

O centro de estudos começou a se formar há três anos a partir de um grupo de cientistas de dados preocupados com a desigualdade racial no país. “Havia insatisfação com os dados divulgados”, explica Eduardo Nunes. A ideia de só usar informação oficial é simples: “A intenção era discutir desigualdade racial, não a origem dos dados.”

Fazem parte do Cedra o próprio Nunes e os professores Marcelo Tragtenberg (UFSC) e Hélio Santos (USP, além de Conselheiro da Oxfam Brasil), os economistas Roseli Faria e Mario Theodoro, a historiadora e presidente do conselho de governança do Ibase Wania Sant’Anna e o doutor em ciências contábeis Cleyton Ritta. A cientista social Cristina Lopes coordena as atividades.

A relevância da iniciativa é dada pelo produto que oferece. Os dados falam por si. O Brasil é um país predominantemente negro. A população preta e parda representa 56% do total, mas tem menos participação proporcional no mercado de trabalho, está em menos de 30% dos cargos de chefia (especialmente os pretos, que são só 4,2% das posições) e ganha salários inferiores. 

Os gráficos a seguir são um resumo da situação apurada pelo IBGE em 2021. Além deles, há uma infinidade de outros dados para mostrar dezenas de distorções do mercado de trabalho e renda e ajudar a dimensionar essas distorções e entender de onde elas nascem: da precariedade da educação acima da média para a população negra e das desigualdades sociais históricas que brotam desse conjunto de falta de acesso e de oportunidade.