Valor Econômico, v. 23. n. 5664, 7,8 e 9/01/2023, Opinião, A12
Investimentos, fusões e aquisições em 2023
Alexandre Pierantoni
O ano de 2023 promete ser mais um ano duro e desafiador para a maioria dos consumidores, negócios e investidores e governos, mas sempre existe oportunidade na volatilidade. O Brasil, mesmo que parte deste contexto e ainda tendo fortes desafios internos, pode ser um dos países a se beneficiar neste momento. Uma exposição maior e mais bem colocada no ambiente internacional de negócios, um pouso mais suave de sua economia e uma mais rápida recuperação podem gerar oportunidades de investimentos na economia real e em diversos setores, alavancando as atividades de fusões e aquisições.
Quando analisamos o cenário em 2022 globalmente, as atividades de fusões e aquisições tiveram uma forte redução, com números preliminares refletindo queda de mais de 19% em número de transações e aproximadamente 39% em volume transacionado. As transações de grande porte (big tickets) foram mais ocasionais.
Os motivos são conhecidos. As incertezas econômicas com temas relacionados a inflação, taxas de juros e recuperação (ou recessão) das principais economias, a guerra da Rússia com Ucrânia, as quebras nas cadeias de fornecimento e as perspectivas do mercado chinês se destacam.
Tensões entre EUA e China continuarão e o Brasil pode se beneficiar enquanto destino de investimentos
Adicionam-se a estes temas, movimentações nos ambientes políticos em vários países (EUA, China, dentre outros) e a crescente relevância, e provocação junto a governos, reguladores, investidores e a sociedade, dos temas ESG (Environmental, Social and Governance), principalmente no ângulo de Environmental.
A combinação destes motivos e contexto levam a compreensão de que uma rápida guinada não pode ser esperada para 2023. São grandes os desafios e não devem se resolver no curto prazo.
A consequente volatilidade dos mercados de capitais, com recordes negativos de abertura de capital de empresas, follow-ons ou mesmo o questionamento, ou baixa performance, dos modelos de investimentos estruturados como SPACs (Special Purpose Acquisition Companies), o aumento das taxas de juros e a incerteza econômica impactam, globalmente, as atividades de fusões e aquisições.
Aumentos de taxas de juros geram consequências não somente nos investimentos em expansão de capacidade produtiva, mas também no aumento da aversão dos investidores ao mercado de riscos e consideração de alocação de recursos na categoria de renda fixa - onde maior previsibilidade, bem como determinação de retorno, estão presentes. Além disto, referida falta de previsibilidade e maior instabilidade causaram a reprecificação dos ativos (empresas), além de afetar o poder de compra de investidores, estratégicos ou financeiros, que, com o aumento do custo de financiamento (maior taxas de juros), teve seu custo de alavancagem financeira e de fazer aquisições aumentado.
Entretanto, alguns direcionadores positivos foram criados e permanecem. A disrupção de modelos de atividades e econômicos, utilizando-se a tecnologia, são um importante exemplo. Fortaleceram-se, em número e recursos alocados, as tech companies (agritech, fintech, edutech, heathtech, logtech, etc) e novos níveis de produtividade e conceitos de negócio foram atingidos.
Este ambiente econômico global desacelerou os investimentos e as atividades de investimentos e fusões e aquisições. A combinação de três palavras-chave para investimentos, previsibilidade, estabilidade e confiança nunca estiveram tão distantes e criaram um ambiente, no mínimo temporariamente, incerto, desconhecido, complexo, de certa forma potencialmente incompreensível e desordenado.
Com o Brasil, sujeito às mesmas intempéries, não foi diferente. Aumento de inflação e taxas de juros, redução do poder de compra da população, aumento da pobreza generalizada, além das eleições presidenciais, provocaram um ano extremamente desafiador (porém não atípico).
Temos ainda headwinds e a falta um plano de voo mais estruturado é clara. Entretanto, a visão de investidores, talvez mais acostumados e treinados ao trabalho em ambientes turbulentos, conseguiu fazer o Brazil proteger sua economia (com atuação mais tempestiva de um Banco Central independente) e um novo perfil de investidores locais, manter seu nível de atividade. Importante destacar também o movimento do governo no desenvolvimento de políticas sociais e de suporte, durante o maior período desta recente crise, com incentivos e subsídios, e a distribuição de renda em níveis recordes.
O mercado de capitais também sofreu e o ano não registrou nenhuma abertura de capital (IPO). Apenas empresas estabelecidas e mais resilientes conseguiram realizar captações, registrando 18 follow-ons que movimentaram cerca de R$ 55 bilhões (incluindo a privatização da Eletrobras, que movimentou R$ 33 bilhões). Mesmo assim, o mercado teve atividades bastante limitadas quando comparadas aos 76 IPOs e follow-ons e mais de R$ 130 bilhões registrados em 2021 (em 2020 foram 51 ofertas (IPOs e follow-ons), movimentando R$ 117 bilhões.
E se contrapôs as atividades de fusões e aquisições que se mantiveram no patamar de 2021. Em 2022, o Brasil registrará cerca de 1.600 transações, em movimentos multisetoriais, ainda liderado pelo setor de Tecnologia - e expandido pela segmentação das tech companies. Produtos de Consumo, Serviços B2B, Agronegócio, Saúde e Educação, Energia, Logística, Indústrias e Infraestrutura também foram setores com significativo nível de atividades. Privatizações e concessões continuaram na agenda do governo e novos marcos regulatórios impulsionaram investimentos em infraestrutura no país.
O investidor financeiro (Private Equity e Venture Capital, Corporate Venture Capital e Family Office) foi importante ator, movimentando mais de R$ 59 bilhões em 254 transações no país no período de janeiro a setembro de 2022.
Diante deste contexto, enquanto os países desenvolvidos enfrentarão um período de recessão, negócios com tendências anticíclicas, reestruturações e potencialmente falência de empresas, deal flow e investimentos poderão ser oportunisticamente alocados para economias emergentes e em recuperação.
A guerra na Ucrânia persistirá por algum tempo e com seus efeitos globais, não se limitando a Europa em questões geopolíticas e de energia. A transição para energia verde/ limpa, ainda custosa quando precisa ser implementada de forma tempestiva, tem recebido impulso extra com apoio de diversos governos. ESG terá ampliação de ações, mas também de regulação - que busca padronizações globais de mensuração de esforços e aplicação - bem como de penalidades a greenwashing. As tensões entre Estados Unidos e China continuarão e o Brasil, aparte a estes conflitos, pode se beneficiar enquanto destino de investimentos.
Poucas foram as ocasiões em que o mundo experimentou desafios (crise sanitária, guerra, movimentações políticas e econômicas, dentre outras) tão complexos, simultâneos e com origem motivada por diferentes eventos. Num mundo globalizado, as crises se conectaram formando uma tempestade perfeita.
Alguns países e investidores se prepararam e anteciparam a saída deste momento. Estudo, preparação e dedicação levam “à sorte de estar no momento certo e no lugar certo”. Neste contexto global ainda nebuloso e pendente de definições, o Brasil, mesmo que ainda em um ambiente turbulento e com diversas incertezas, poderá estar bem posicionado para ações temáticas (ESG), captando maior nível de investimento estrangeiro na economia real e otimizando um novo ciclo de crescimento.