O Globo, n 32.362, 15/03/2022. Política, p. 04

“INVASÃO” DE TERRITÓRIO

Bernardo Mello


Pré—candidatos disputam apoios de ruralistas, empresários e sindicatos

Na disputa para a Presidência da República, além de alianças partidárias, os précandidatos tentam conquistar apoios em entidades ruralistas, de empresários e sindicatos. Na dianteira nas pesquisas eleitorais, o ex-presidente Lula (PT) atua para aglutinar as centrais sindicais. No último pleito parte delas apoiou Ciro Gomes (PDT), que pretende concorrer novamente. O petista, assim como o presidenciável do Podemos, Sérgio Moro, também busca dissidentes do presidente Jair Bolsonaro (PL) no agronegócio e em entidades patronais.

Na campanha de 2018, Bolsonaro recebeu apoios públicos da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) e do então presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf. Dirigentes da Fiemg e da Firjan — federações da indústria de Minas e do Rio — também manifestaram simpatia ao então candidato do PSL. Já o petista Fernando Haddad só reuniu as centrais sindicais na reta final; no primeiro turno, parte delas apoiou Ciro.

Além do histórico de Lula no movimento sindical, um dos fatores que tem facilitado a aglutinação hoje é a costura do petista para ter como vice Geraldo Alckmin. O ex-tucano já foi apoiado por entidades como a Força Sindical e a União Geral dos Trabalhadores (UGT), nascidas como contra pesos à Central Única dos Trabalhadores (CUT), historicamente ligada ao PT. O deputado Paulo Pereira da Silva, ex-presidente da Força, chegou a sugerir a filiação de Alckmin a seu partido, o Solidariedade.

— Alckmin goza de uma confiança muito grande conosco. Sem dúvida, é importante para esse diálogo com as centrais —afirmou o presidente da UGT, Ricardo Patah, que é filiado ao PSD, de Gilberto Kassab.

As centrais vão elaborar, em conferência no próximo dia 7, um documento com propostas para ser entregue a todos os presidenciáveis. Um dos pontos a serem debatidos é a reforma trabalhista. Sua revisão já foi defendida por Lula neste ano e em 2018 por Ciro, que colheu apoios à época da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), Força Sindical e UGT. Hoje, ainda não há consenso em temas como a volta do imposto sindical.

— Queremos discutir uma nova relação entre capital e trabalho, o que envolve corrigir alguns pontos da reforma trabalhista, mas estamos atentos para evitar mais insegurança jurídica. Falar em revogação em 2018 era uma coisa, hoje já se passaram cinco anos da reforma —avalia o presidente da CSB, Antonio Neto, membro do PDT e aliado de Ciro.

INCURSÃO NO AGRO

No mundo do agro, Lula tem como principal aliado na busca por apoios o empresário Carlos Augustin, ligado à Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem) e crítico da atual gestão da CNA. Conhecido como Têti, ele é irmão do ex-secretário do Tesouro no governo Dilma, Arno Augustin. No início do ano, o empresário organizou um encontro de produtores rurais com Lula, episódio que irritou o bolsonarismo.

Lula também tenta se reaproximar do ex-ministro da Agricultura Blairo Maggi, hoje presidente do conselho da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). Maggi apoia a pré-candidatura ao Senado pelo Mato Grosso do deputado Neri Geller (PP), e tem se afastado de Bolsonaro, que apoiará a recondução do senador Wellington Fagundes (PL).

Para uma liderança de entidade ruralista, em que pesem os acenos de Lula, o agronegócio se divide principalmente entre o avala Bolsonaro e a aposta na terceira via. Este representante avalia, porém, que a perspectiva de eleição polarizada já tem feito integrantes do setor considerarem repetir a adesão majoritária a Bolsonaro. A eventual indicação da ministra da Agricultura, Tereza Cristina( PP ), como vice é tida como um desses “gatilhos”. Tereza preside desde 2020 a Sociedade Rural Brasileira (SRB), ligada a produtores do campo.

RACHA NO CAMPO

O agro viveu um racha no ano passado, motivado por posicionamentos críticos da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) ao governo Bolsonaro. Representante dos produtores de soja, a Aprosoja rompeu com a gestão do então presidente da Abag, Marcello Brito, que assinou um manifesto em defesa da democracia após atos bolsonaristas no 7 de Setembro.

Na última semana, Bolsonaro recebeu no Palácio do Planalto produtores rurais sem ligação formal com as principais entidades do agro. Reservadamente, lideranças patronais enxergam “interesses imediatistas” desses produtores, por exemplo, na flexibilização de normas técnicas para plantio e cultivo, além de um envolvimento mais direto em arrecadação e coordenação de campanha.

Procurado pelo GLOBO, o pecuarista Adriano Caruso, que atua no interior paulista e compareceu ao encontro, não respondeu se tratou de financiamento de campanha e disse que o evento serviu para “levar total apoio” a Bolsonaro. Apontado como coordenador da campanha presidencial em Rondônia e organizador do evento, o pecuarista Bruno Scheid disse em suas redes sociais que “nunca” tratou de financiamento de campanha.

—O presidente gosta de ouvir o pessoal da ponta da linha, para ver se bate com o que as entidades estão falando. Em 2018 já existiram iniciativas privadas de campanha, de pessoas físicas que se quotizaram para instalar outdoors, por exemplo. Isso é natural e não tem como controlar — afirma o deputado estadual Frederico D’Ávila (PLSP), ex-diretor da Aprosoja.

Moro também tem tentado se aproximar do setor. O ex deputado e engenheiro agrônomo Xico Graziano, escalado para a pré-campanha do ex juiz, levou o pré-candidato do Podemos, em dezembro do ano passado, a um encontro como presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Márcio Lopes de Freitas, e com o presidente do Conselho da Cooperativa Agroindustral de Maringá (Cocamar), Luiz Lourenço.

Nas entidades industriais, por outro lado, há tentativas de escapar à polarização especialmente em São Paulo e Minas. Na Fiesp, o empresário do setor têxtil Josué Gomes da Silva, que sucedeu Skaf, já se manifestou de forma crítica a Bolsonaro. Embora seu pai, José Alencar, morto em 2011, tenha sido vice de Lula, ele também se mantém distante do apoio ao petista. Já o presidente da Fiemg, Flávio Roscoe, tem auxiliado nos bastidores o governador Romeu Zema (Novo) a costurar alianças com partidos de centro.